quarta-feira, 9 de setembro de 2026

AS TRAIÇÕES DE GREGORY BENFORD — FUNDAÇÃO: O MEDO (1997)

A Segunda Trilogia da Fundação é um conjunto de romances de FC ambientados no universo ficcional criado por Isaac Asimov. Acabei de reler o primeiro desses volumes, Fundação: o Medo, de Gregory Benford. Os demais são, respectivamente, de Greg Bear e David Brin.

A história futura concebida por Asimov é — pelo menos inicialmente — uma projeção da compreensão iluminista da história do Ocidente. Um esquema teleológico em três etapas: (1) império/progresso, (2) fragmentação/trevas e (3) renascimento/novas luzes. Hari Seldon formula seu plano, por meio da psico-história, para reduzir o período (2) de fragmentação — a Idade Média galáctica — e acelerar (3), o renascimento da civilização sobre bases ainda mais firmes.

Os leitores de Asimov sabem que ele eventualmente problematiza esse esquema, incluindo, por exemplo, questões ambientais e uma crítica ao próprio imperialismo. Mas, em todos esses cenários, a seta da história nos futuros criados por Asimov aponta para o fim da miséria humana. A meta que transparece é sempre o esclarecimento, o progresso, a felicidade.

Já Benford, em Fundação: o Medo, bagunça tudo. O renascimento (3) não é mais a meta, mas um destino a ser evitado. Temos um Império deliberadamente feudal e medieval, organizado em classes sociais rígidas e cujo valor básico é a manutenção da ordem social. A versão de Benford do Império não tem como meta o progresso, mas a estabilidade em si mesma. É um cenário que parece ter saído mais das páginas de Duna do que das páginas de Asimov.

Fundação: o Medo é uma obra complexa, com muitas linhas narrativas simultâneas e muitos debates propostos. O leitor sente que navega em águas não asimovianas quase desde o princípio, mas não é tarefa simples identificar exatamente as traições de Benford. O autor se apropria com firmeza do legado de Asimov, não se pode negar. A questão talvez esteja em sua motivação para fazê-lo. Benford parece ter algumas pautas.

Uma delas é a defesa das hierarquias naturais. Em sua obra, a decadência do Império é causada justamente pelos planetas progressistas e inovadores, aqueles que promovem o renascimento. Há inclusive um capítulo em que a psico-história é atravessada pela psicologia evolutiva para explicitar a ideia de que as sociedades humanas são determinadas por fatores biológicos e de que não é realmente possível alterá-las além de certo ponto. A compreensão estrutural da história de Asimov cede lugar à constatação de que o homem é um primata brutal em competição constante.

Um dos tópicos de Asimov apropriados por Benford é a questão do caos que ameaça o estabelecimento da psico-história. Para Asimov, superar o caos era uma questão de refinamento dos instrumentos matemáticos usados para compreender a realidade. A palavra “caos” era empregada em sentido técnico.

Benford revisita a questão de outra maneira. O caos nas equações psico-históricas passa a ser também resultado do caos social do Império. Caos deixa de ser apenas uma questão matemática e vira "crítica social". O Seldon de Benford entende que uma de suas missões, como primeiro-ministro, é simplificar o Império, coibindo renascimentos imprevisíveis para torná-lo mais previsível. Combater o caos aqui não significa apenas melhorar a teoria, mas ajustar a realidade em benefício da teoria.

Para esse Seldon, a única versão verdadeiramente estável do Império parece ser aquela que se perpetua como uma versão cósmica de um agrupamento de primatas, tendo o imperador como macho alfa. 

Na primeira vez que li essa trilogia, há alguns anos, fiquei com a impressão de que o trabalho de Benford era o menos asimoviano dos três. Essa impressão se confirmou em minha leitura recente. Não se trata somente de um problema de escrita prolixa e carente de humor, em si mesma antitética ao estilo do grande mestre da FC. Benford está na contramão de Asimov de uma forma mais fundamental. Asimov criou uma narrativa progressista. Benford fez o oposto.

O Seldon de Asimov é talvez o maior revolucionário da história, e essa revolução passa exatamente pela síntese final entre ciência hard e soft, pela superação das “duas culturas”, pela unificação da ciência. O Seldon de Benford representa outra visão, na qual as ciências ditas “físicas” aparecem como a única forma verdadeiramente legítima de saber científico. A psico-história à la Benford não é uma síntese: ela parece ser o resultado de uma guerra cultural vencida por um dos lados, o lado da “verdade”. Assim, enquanto Asimov transforma Seldon no arquiteto de uma revolução histórica, conduzindo a humanidade a um futuro sem precendentes, Benford parece convertê-lo em um reacionário interessado sobretudo na restauração do modo de vida natural do ser humano. 

Agora, falando como bibliófilo, a presença da Trilogia da Segunda Fundação em minha coleção me enche de orgulho. São volumes publicados em Portugal pela Europa-América no final dos anos 90 e muito difíceis de obter no Brasil. Francamente, desgosto desta obra de Benford, mas reconheço seus poderes oraculares.

Já em 1997 ele amaldiçoava os “pós-modernistas, desconstrucionistas e relativistas”, vocabulário que, quase trinta anos depois, se tornaria um modismo na internet. Benford só não declarou guerra ao woke porque o termo ainda não estava em uso. Mas boa parte do vocabulário, dos adversários imaginários e da certeza de que a ciência precisava ser defendida das humanidades já estava lá.

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