Finalmente, algumas linhas sobre Jack Vance (1916–2013), de cuja obra Star King foi extraído o título deste blog, “Taverna de Smade”. E como é estranho aportar na obra de Vance depois de um mergulho pelo universo de Star Trek! Este último apresenta um projeto utópico de formação de uma grande comunidade regida por princípios comuns; Vance, por sua vez, parece desconfiar da própria possibilidade de tais princípios, deleitando-se em explorar cenários marcados por tensões entre comunidades — ou indivíduos — de concepções epistemológicas incompatíveis.
A apreciação convencional de Jack Vance passa necessariamente por sua linguagem apurada e singular, carregada de “vancismos”. Naturalmente, os que leem Vance em português, como eu, não estão em condições de apreciar completamente esse aspecto. Outra maneira frequente de caracterizá-lo é destacar o sabor antropológico de seus escritos, característica que por vezes o aproxima de Ursula K. Le Guin.
Note-se que Le Guin alcançou um público incomparavelmente maior, enquanto Vance permaneceu relativamente obscuro fora dos círculos da FC e da fantasia. Na terceira temporada de Star Trek: Discovery, aparece uma nave batizada USS Le Guin, em clara — e merecida — homenagem à escritora. Curiosamente, por coincidência, nesses mesmos episódios encontramos também o almirante Charles Vance; mas não há qualquer indicação de que seu sobrenome seja uma homenagem a Jack Vance.
E, pela razão que mencionei acima, uma homenagem vanciana em Star Trek nem seria a mais óbvia das associações. Mas não se preocupe, caro leitor: Neil Gaiman e George R. R. Martin são apenas dois entre os muitos escritores que reconheceram explicitamente sua dívida para com Vance. Homenagens não faltam!
Retomemos, por um instante, uma das grandes narrativas da modernidade ocidental, que poderia ser sintetizada assim: os valores ditos civilizados expandem-se pelo planeta — e, quem sabe, pelo cosmos — em um processo chamado “progresso”. Cabe aos “nativos” de diferentes partes do planeta ou do universo adotar esses valores, abandonar seu “primitivismo” e integrar-se à grande comunidade mundial ou galáctica. Implícita nesse esquema está a concepção de que os valores ditos civilizados são, de alguma forma, “superiores”.
Como venho argumentando, lidar com esse esquema é um dos grandes desafios da FC. Em Star Trek, a Federação representa o caminho utópico a seguir. Isaac Asimov, na série Fundação, aposta primeiro no Segundo Império Galáctico e depois em Gaia, a Galáxia Viva. Le Guin problematiza amplamente a questão e frequentemente prefere adotar o ponto de vista dos nativos e colonizados, questionando concepções rasas de progresso — veja-se Floresta é o Nome do Mundo, por exemplo.
Jack Vance parece seguir por outro caminho. Em geral, rejeita compromissos teleológicos abrangentes, quaisquer que sejam. Se adota algum ponto de vista, costuma ser o de seu personagem principal — e apenas enquanto acompanhamos esse personagem.
Vejamos, por exemplo, Marune: Alastor 933 (Ed. Francisco Alves, 1988), obra que inspira este texto. Pode ser resumida como o relato da busca de um homem por identidade e sentido para a própria vida. E o que ele encontra? As últimas frases do livro são um diálogo singelo entre esse homem, Efraim, típico “herói” vanciano, e sua companheira:
— Então o que faremos?
— Não sei.
— Também não.
Não conheço muitos autores que se permitam terminar uma história assim. Algo semelhante ocorre ao final de A Saga dos Príncipes Demônios, quando encontramos outro protagonista vanciano, Kirth Gersen, descobrindo, ao término de suas aventuras, que já não dispõe de uma meta abrangente para orientar sua existência, apesar de seus consideráveis recursos pessoais.
A concepção de um indivíduo — ou mesmo de uma comunidade — cujas motivações não estejam subordinadas a algum grande princípio racional ou histórico é desconcertante para nós. Vivemos, em maior ou menor grau, à sombra dos ideais racionalistas do Iluminismo. Talvez por isso alguns fãs de Vance especulem que Kirth Gersen, depois das aventuras dos cinco volumes da Saga, teria acabado por se tornar uma espécie de governante galáctico, o primeiro Connatic. Como é confortável imaginar que Gersen finalmente colocou sua existência a serviço de uma causa mais nobre e construtiva do que a simples vingança pessoal!
Entretanto, é raro que os protagonistas vancianos estejam dispostos a guiar a própria vida por idealismos racionalistas, moralidades universais, princípios abstratos ou pela busca do poder como fim em si mesmo. Esse tipo de fixação costuma ser reservado aos antagonistas. Também seria inadequado apresentar Vance simplesmente como um paladino da Liberdade. Nenhum protagonista vanciano típico daria a vida pela liberdade pelo simples motivo de que, depois de morto, não estaria em condições de exercê-la.
Claro que Vance ocasionalmente faz algo diferente, como em Enfírio (Galeria Panorama, 1972), obra em que adota um tom invulgarmente sério.
Marune é o planeta de número 933 do Agrupamento de Alastor, composto por mais de três mil mundos. Um grupo de humanos encontrou ali criaturas “semi-inteligentes”, os fwai-chi, e logo se pôs a combatê-las e expulsá-las de suas terras ancestrais. O XVI Connatic da Dinastia Idite interveio severamente, proibiu definitivamente o porte de armas a esse grupo de humanos e o confinou a determinadas áreas do planeta. Estabeleceu-se, assim, ampla proteção aos nativos.
Em nenhum momento da trama, porém, os fwai-chi são apresentados como inteiramente compreensíveis. Suas motivações e interesses jamais são revelados por completo ao leitor — talvez pela simples razão de que não seja possível fazê-lo. Os fwai-chi não veem sentido nas ações humanas e não desejam contato. Está implícito que os humanos, por sua vez, também seriam incapazes de compreendê-los plenamente.
Claro, os fwai-chi não são humanos, nem sequer humanoides. Descendem de uma árvore biológica distinta e desenvolveram suas capacidades cognitivas em um ambiente extraterrestre. Não há motivo para supor que conceitos criados para descrever aspectos da cognição humana — como o próprio conceito de inteligência — sejam automaticamente aplicáveis a eles. Vance, em várias obras, explora justamente a dificuldade de generalizar categorias psicológicas, epistemológicas ou morais entre culturas humanas distintas e, ainda mais, entre espécies inteligentes diferentes.
Não encontraremos facilmente, na obra de Vance, uma legitimação simples da integração dos “nativos” à sociedade dita civilizada. A oposição entre culturas “superiores” e “inferiores” é repetidamente desestabilizada. A substituição de configurações sociais chamadas “arcaicas” por outras chamadas “modernas” tampouco representa necessariamente uma vitória do progresso.
Em certos casos, chega-se a sugerir que o intercâmbio cultural pode encontrar limites quase intransponíveis devido à incompatibilidade dos próprios referentes. Aliás, Vance não se furta a empregar expressões rebuscadas como “intransponibilidade dos referentes”, tendo o cuidado de colocá-las na boca de personagens tão eruditos quanto truculentos. Ironicamente, muitas obras de Vance possuem sabor antropológico precisamente porque colocam em questão os limites da própria antropologia.
O Agrupamento de Alastor, talvez a criação mais próxima de uma utopia saída da pena de Vance, consiste em um aglomerado de planetas de extraordinária diversidade cultural. Não há uma cultura universalmente dominante nem absolutos epistemológicos impostos a todos. Tentativas de impor uma ordem desse tipo são reprimidas pelo Connatic vigente. Trata-se de um monarca cuja função não é reforçar uma episteme única, mas preservar uma espécie de coexistência entre diferentes visões de mundo.
E, se os seres humanos algum dia encontrarem “outros” nas vastidões do espaço, Vance frequentemente parece sugerir que talvez a solução mais sensata seja delimitar claramente as respectivas áreas de influência e deixá-las assim — como ocorre, de maneira particularmente explícita, em Detetive Galáctico, publicado pela coleção Argonauta em 1984.
Jack Vance é, afinal, uma espécie de relativista um tanto pedante. Normalmente, não encontramos em seus escritos grandes intenções “educativas”, no sentido de elucidar princípios científicos ao leitor, como fazia Asimov, nem uma “moral da história” inequívoca. Uma deliciosa exceção é Ópera Interplanetária, livro cômico em que Vance explica princípios de teoria musical e que tem, sim, uma mensagem bastante clara: a música não é uma linguagem universal!
De modo geral, porém, sua obra permanece aberta a interpretações contraditórias. É possível lê-la como uma espécie de cautionary tale sobre os perigos do abandono de valores humanistas; também é possível tomar Vance como defensor de alguma forma radical de individualismo. Por trás dessas ambiguidades está um escritor profundamente ligado às raízes pulp da FC, que não teme lançar mão dos clichês da space opera e da fantasia para recombiná-los de maneira criativa e renovada.
Em O Fim do Império Cognitivo: a afirmação das epistemologias do Sul (2018; ed. brasileira, 2019), o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos trata justamente da diversidade epistemológica em nosso planeta e argumenta que o imperialismo pode assumir também a forma de coerção epistêmica. Mas então surge a pergunta incômoda: e os conhecimentos científicos? Não possuem pretensões de universalidade?
É nesse ponto que me interessa aproximar, ainda que de maneira bastante livre, a discussão de Boaventura da obra de Vance. No maravilhoso universo literário vanciano, se determinado grupo acredita em magia, talvez a magia simplesmente exista. Já quanto ao mundo “real”... quem sabe?
Tem a ver:
Obras de Jack Vance em português
A propósito de Heinlein e da FC
Vance foi um dos escritores que mais gostei de ler quando jovem. Lia seus livros das traduções no português de Portugal, mas mesmo assim eram fantásticos.
ResponderExcluirÉ uma pena que tão pouco da obra dele esteja disponível em português! Sim, tem algumas, como "As Linguagens de Pao", que só pela Argonauta mesmo...
Excluirquando acabaram todos os livros do Vance em portugues eu me obriguei a ler em ingles. peguei um dicionário e o The Planet of Adventure e fiquei séculos traduzindo. eventualmente eu consegui. Melhor motivação para aprender um idioma.
ResponderExcluirFiz isso mesmo com os volumes finais dos Príncipes-Demônios. Mas tá faltando coragem para The Planet of Adventure!
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