Estou relendo Trombetas da Revolução, de Lloyd Biggle Jr., número 174 da Colecção Argonauta. Lembro-me da minha reação ao encontrar este volume pela primeira vez — em um sebo, obviamente, já que se trata de uma publicação dos anos 1970: “Este título é demasiado grandiloquente!”, pensei.
O título original é, de fato, mais contido: The Still, Small Voice of Trumpets, além de aludir à versão King James de 1 Reis 19:12. Mas, ao fim da leitura, percebe-se que o título em português é bem escolhido, afinal. Gostei muito da obra quando a li pela primeira vez, no início deste século.
Logo nas primeiras páginas, o autor trata de nos informar que estamos no planeta Gurnil, na base local de um certo Gabinete de Relações Interplanetárias (GRI). Seu objetivo é conduzir Gurnil na direção da democracia, para que o planeta possa enfim ser admitido na comunidade galáctica.
O empreendimento deve desenrolar-se de forma dissimulada e indireta: as instalações são secretas, e os “nativos” — Biggle Jr. emprega especificamente essa palavra — desconhecem a presença dos agentes do GRI. O lema do gabinete é “a democracia imposta do exterior é a mais severa forma de tirania”. Nas palavras do Manual de Campanha do GRI 1048 K, “o gabinete não cria revoluções, cria a necessidade de revolução”.
Estamos, portanto, às voltas com aquela visão esquemática da história tão encontradiça em certa FC clássica. Parte-se da ideia de que uma bolha “civilizadora”, iniciada talvez há meio milênio com as grandes navegações e então centrada na Europa, continuará simplesmente a expandir-se pelo universo afora, levando consigo sua cultura, suas instituições e seus valores — entre eles, a democracia.
Há, no entanto, uma diferença importante: os agentes do GRI precisam respeitar certas regras. Comparadas às fantasias conspiratórias contemporâneas, suas ações chegam a parecer quase ingênuas. Ainda assim, mostram-se bem-sucedidos em boa parte de Gurnil, com uma exceção: Kurr, uma florescente monarquia governada por uma dinastia de reis tão brilhantes quanto cruéis.
Por alguma razão, os habitantes de Kurr não demonstram interesse em revolução, apesar de quatrocentos anos de esforços do GRI nesse sentido. Cabe então ao protagonista, Forzom, um recém-chegado, descobrir como levá-los a depor o rei. E, se este livro ainda merece ser relido com carinho, é sobretudo pela originalidade da solução que Forzom encontra.
O utilitarismo tacanho é frequentemente apontado como inimigo da ciência, especialmente da chamada pesquisa básica. Mas é relativamente fácil defendê-la recorrendo ao argumento do longo prazo. Poucas coisas pareciam mais inúteis do que a física quântica em seus primórdios; suas aplicações práticas, contudo, acabaram por se revelar imensas — e bastante lucrativas.
Mais difícil é defender a arte e a cultura diante de acusações semelhantes. E é precisamente isso que Biggle Jr. faz. Trombetas da Revolução é, entre outras coisas, uma narrativa sobre o fracasso do mero utilitarismo e sobre o triunfo da música como força de transformação social — e até de inovação tecnológica.
Não foi exatamente uma surpresa descobrir que Lloyd Biggle Jr. era também músico.
Tenho dúvidas se teria hoje paciência para chegar ao fim de Trombetas da Revolução caso esta fosse minha primeira leitura. Ou, melhor dizendo, caso o lesse pela primeira vez com a cabeça que tenho agora. Logo nas primeiras páginas já percebemos que o mocinho e a mocinha acabarão juntos, entre outras previsibilidades.
Mas as segundas leituras têm suas recompensas...
Tem a ver:
As Canções da Terra Distante
E este blog, o que é?
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