quarta-feira, 2 de março de 2022

LUZ DE OUTRA DIMENSÃO – LLOYD BIGGLE JR.

             Antigos filósofos postulavam que a arte era o marcador da diferença entre o humano e o animal. Era o exercício da arte – intermediado pelas musas – que aproximava a humanidade da esfera divina, elevando-a, afastando-a do reino animal. Mas como reagiriam os que pensam assim se encontrassem, em outros mundos, criaturas fisicamente semelhantes aos animais, mas dotadas de sensibilidade estética?

            Essa é questão de fundo proposta por Lloyd Biggle Jr. em Luz de Outra Dimensão (Hemus, 1981). Nessa obra, encontramos a humanidade espalhada por diversos planetas, muitos deles habitados por espécies inteligentes nativas chamadas depreciativamente de “animalóides”. A descoberta dos dotes artísticos dos “não-humanos” – como são também chamados – parece coincidir com irrupções selvagens da população humana contra as demais espécies inteligentes, que até então eram oprimidas, mas não assassinadas em massa.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

A MÃO ESQUERDA DA ESCURIDÃO: NOTA SOBRE LE GUIN E FOUCAULT

            Acabei de reler minha velha edição, publicada pelo Círculo do Livro em meados de 1985, de A Mão Esquerda da Escuridão (1969), de Ursula K. Le Guin. Aliás, bela edição, com boa tradução e capa dura, que vem sobrevivendo galhardamente aos maus tratos que impinjo aos meus volumes. Não abordarei aqui este texto como precursor das questões contemporâneas de gênero e sexualidade – o que certamente é! – , já que outras e outros o fazem bem melhor do que seria capaz (como aqui: https://www.momentumsaga.com/2022/02/resenha-a-mao-esquerda-da-escuridao-de-ursula-le-guin.html). Em vez disso, pretendo apontar um outro eixo essencial da obra, aquele que diz respeito aos contrastes que Le Guin cuidadosamente estabelece entre duas nações do planeta ficcional Gethen, Karhide e Orgoreyn, com o objetivo de investigar e criticar fenômeno da Modernidade aqui da Terra.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Fui publicado!

Alvíssaras! 

Meu conto "E vi surgir do mar uma besta" foi publicado no número 116 da Somnium, que é a publicação oficial do Clube de Leitores de Ficção Científica (do qual sou membro).

A revista pode ser encontrada aqui:



Agradeço à equipe do CLFC e ao editor responsável pela oportunidade.




Tem a ver: 
 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

E QUANTO AOS DEUSES? – PARTE 3

 

Continuamos com Star Trek. A Nova Geração (1987-1994) também tem sua cota de episódios de deuses-astronautas, inclusive um em que os humanos acabam sendo considerados como deuses. De um ponto de vista rigoroso, episódios como esse não deveriam existir. A Federação Unida de Planetas, em sua Primeira Diretriz, proíbe a interferência em planetas com culturas consideradas “primitivas” (Kirk, na Série Clássica, desobedecia a essa regra com regularidade). Aos cientistas federados permitia-se estudar planetas menos "avançados" se fossem usadas táticas para manter sua presença oculta. Mas bastou um acidente revelar a presença dos cientistas – e a Enterprise-D ser chamada para prestar socorro – para termos o capitão Picard adorado com um deus no episódio Who Watches the Watchers (1989). Como bom cidadão federado, ele recusa essa adoração. O resultado é um episódio que, mesmo sendo tributário de Däniken, ao menos problematiza o tema.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

E QUANTO AOS DEUSES? – PARTE 2

          Como fã de Star Trek, não posso deixar de comentar que a franquia abordou os deuses-astronautas, ao seu modo, antes de Däniken. Em um episódio de 1967 da Série Clássica Who Mourns for Adonais? a tripulação da Enterprise encontra entre as estrelas Apolo, o musageta, deus grego da luz, da profecia e da música. Mas tudo não passa de um pretexto: o tema do episódio é a luta humana por autodeterminação, e não a hipótese dos astronautas antigos.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

E QUANTO AOS DEUSES? – PARTE 1

 

            Muita FC foi escrita postulando a interferência de extraterrestres no planeta Terra em um passado distante. A Voz do Mestre (1968), de Stanislaw Lem, trata de uma transmissão de neutrinos – gerada intencionalmente por outra civilização – que teria permitido o próprio fenômeno da vida em nosso planeta (e talvez em uma vasta região da galáxia) ao aumentar as probabilidades da biogênese. Em 2001: Uma Odisseia no Espaço (também de 1968), Arthur C. Clarke descreve como um artefato de origem extraterrestre – o famoso monolito negro – teria atuado para incrementar a capacidade cognitiva dos pré-humanos.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A VOZ DO MESTRE – STANISLAW LEM


Acabo de reler A Voz do Mestre, de Stanislaw Lem (Ed. Francisco Alves, 1991). O texto de Lem é denso e filosófico. Problemas de tradução contribuem para tornar o livro quase impenetrável em certas passagens. Não obstante, é uma leitura fantástica: as explanações a respeito da aleatoriedade, por exemplo, são perfeitamente acuradas e essenciais para a compreensão da trama. E se fosse percebido um padrão nos bilhões de neutrinos cósmicos que atravessam a Terra a cada instante? Tratar-se-ia de uma mensagem? Eis a trama de A Voz do Mestre, que nos apresenta os bastidores de um projeto secreto do governo dos EUA destinado a “decifrar” uma “mensagem” recebida das estrelas. Uma legião de cientistas de diferentes áreas é recrutada e instalada em uma região desértica do EUA. Não é por acaso que Lem (que era polonês) situa a narrativa na América: existe a intenção mais ou menos expressa de estabelecer uma comparação com o Projeto Manhattan. 

A Voz do Mestre - Ed. Francisco Alves


segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

E QUANTO AO PARAÍSO?

        Descrevo a seguir cinco visões genéricas a respeito do sentido da história, tal podem ser encontradas em obras de ficção especulativa (categoria que abrange também a FC). Uso a expressão paraíso em um sentido não religioso, como significando um estado geral de coisas absolutamente desejável, uma sociedade ideal. Mas não a uso por acidente, na medida em que constato as relações entre a ficção especulativa e o pensamento religioso.