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A MÃO ESQUERDA DA ESCURIDÃO: NOTA SOBRE LE GUIN E FOUCAULT

Acabei de reler minha velha edição de A Mão Esquerda da Escuridão (1969), de Ursula K. Le Guin, publicada pelo Círculo do Livro em meados de 1985. Aliás, bela edição, com boa tradução e capa dura, que vem sobrevivendo galhardamente aos maus-tratos que impinjo aos meus volumes.

Não abordarei aqui este texto como precursor das questões contemporâneas de gênero e sexualidade — o que certamente é! —, já que outras e outros o fazem bem melhor do que eu seria capaz (como aqui). Em vez disso, pretendo apontar outro eixo essencial da obra: os contrastes que Le Guin cuidadosamente estabelece entre duas nações do planeta ficcional Gethen, Karhide e Orgoreyn, com o objetivo de investigar e criticar aspectos da modernidade terrestre.

O que move a narrativa é a missão de Genly Ai, um enviado do restante da humanidade — representada por um Conselho Ecumênico — ao planeta Gethen. Sua tarefa é persuadir as nações do planeta, até então ignorantes da existência de seus parentes alienígenas, a integrar-se a uma comunidade interestelar.

Ai dirige-se primeiro ao reino de Karhide, uma monarquia pomposa, arcaica e um tanto caótica. Frustrado com a lentidão, os rituais e as ambiguidades da corte karhidiana, acaba voltando-se para Orgoreyn, que à primeira vista parece representar justamente o oposto: organização, eficiência, racionalidade administrativa e modernização.

É nesse contraste que Orgoreyn se torna especialmente interessante. A instituição central da civilização orgota é a “comensalidade”, que Le Guin imagina e descreve com muita propriedade como foco disciplinador da sociedade. É possível ler Orgoreyn à luz de Michel Foucault, sobretudo pela forma como suas instituições enquadram, classificam e disciplinam os indivíduos.

A modernidade pode ser entendida, nessa chave, como um processo de sujeição, em que o sujeito moderno é formado por seu enquadramento a instituições sociais disciplinadoras — o que corresponde necessariamente à criação de instituições de internamento para os não enquadráveis, como o hospício e a prisão, estudados por Foucault. Le Guin, diversas vezes ao longo do texto, salienta a diferença entre o sujeito de Orgoreyn — cuja existência é extensamente colonizada pelo poder — e o de Karhide, comparativamente mais “livre”.

A grande ironia é que Genly Ai, ao desgostar da anárquica Karhide e deslocar-se para a progressista Orgoreyn, acaba tendo uma experiência pavorosa justamente com o “lado B” da modernidade. Ele próprio é declarado não enquadrável, preso e enviado a um dos “campos da morte”, de onde eventualmente consegue escapar com enormes sacrifícios.

Ao fim da narrativa, Ai retorna ao ponto de partida: a “primitiva” Karhide, governada por um rei insano. E é justamente essa nação que acaba por se abrir ao contato extraplanetário.

Se quiséssemos recontar essa história aqui na Terra, seria algo assim: Genly Ai chega a Brasília, onde causa sensação, mas atinge poucos resultados. Frustrado, vai para Washington. Quem sabe nos EUA, país de “primeiro mundo”, sua mensagem seja finalmente ouvida! Após um aparente sucesso inicial, é enganado e aprisionado por alegadas razões de segurança nacional. Consegue escapar e volta, com o rabo entre as pernas, ao Brasil.

É essa aguda consciência de que o “progresso” pode ter um “lado B” — por exemplo, a vigilância estatal constante — que afasta Le Guin de boa parte da FC clássica norte-americana da chamada Era do Ouro e a aproxima, em certos aspectos, da sociologia de Foucault em Vigiar e Punir (1975).

Quem leu A Mão Esquerda da Escuridão sabe que esse aspecto que estou discutindo simplesmente não é o mais impactante da obra. O leitor contemporâneo frequentemente encontra maior estímulo nas questões de gênero e sexualidade apresentadas por Le Guin. Mas tudo se relaciona: não é por acaso que a nação alegadamente mais “desenvolvida” se mostra também a mais fóbica em relação às diferenças de Genly Ai.

De qualquer forma, é uma obra dos anos 60, e o gênero ainda é visto principalmente em termos de função biológica, com pouca ênfase no contexto cultural do conceito. Mas em Os Despossuídos, de 1974, Le Guin irá se ocupar dessa lacuna. Assunto para um post futuro.

Tem a ver:

Marune: Alastor 933
A Terra Longa

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