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A TERRA LONGA - Pratchett / Baxter

Poucas obras de FC publicadas em anos recentes me trouxeram tantas alegrias quanto A Terra Longa — tradução de The Long Earth, de Terry Pratchett e Stephen Baxter —, lançada no Brasil pela Bertrand Brasil em 2018. Descobri o livro em uma livraria, na estante das novidades. Folheei o volume ao acaso e, quando meus olhos bateram em uma descrição do canto coral do Homo habilis, soube que levaria aquele livro verde comigo.

Sou o primeiro a admitir que a série da qual A Terra Longa é o primeiro volume não é particularmente profunda e dificilmente poderia aspirar à densidade, digamos, da trilogia de Cixin Liu iniciada por O Problema dos Três Corpos. Em compensação, sua leitura é muito mais fluente. O que me capturou, entretanto, foi sobretudo a extraordinária coincidência entre assuntos que me interessam e aqueles abordados neste primeiro volume:

  • a exploração de múltiplas versões do planeta Terra — em outras palavras, um multiverso;
  • possíveis relações entre as origens da música e da linguagem, além do canto coral;
  • a definição de inteligência e consciência, naturais ou artificiais — afinal, um dos personagens centrais, Lobsang, é uma inteligência artificial, embora insista que a questão é um pouco mais complicada;
  • balões dirigíveis.

Como já confessei por aqui no blog, tenho certa preguiça de ler literatura em inglês e normalmente só me disponho a isso em casos excepcionais. As sequências de A Terra Longa foram um desses casos. Lá por 2020, obriguei-me a ler no original o segundo volume, The Long War, posteriormente lançado no Brasil como A Guerra Longa. Já menos empolgado, segui para o terceiro, The Long Mars — que, para minha alegria, contém referências a Duna. O quarto, The Long Utopia, deixei pela metade. Minha impressão era de que a série se afastava progressivamente do tom que me encantara no primeiro livro. O quinto e último, The Long Cosmos, não cheguei a ler.

Ao tentar percorrer a pentalogia, tive a impressão de que seus rumos se aproximavam gradualmente da prosa mais seca e arquitetada de Stephen Baxter e se afastavam do humor peculiar de Terry Pratchett. É perfeitamente possível, porém, que haja aí um belo caso de viés de confirmação. Eu já sabia desde o início que a ideia original de A Terra Longa era de Pratchett. Ele começara a explorar o conceito ainda nos anos 1980 e o retomou com Baxter em 2010. Também sabia que Pratchett havia anunciado, em 2007, o diagnóstico de uma forma rara de Alzheimer e que morreria em 2015, antes da publicação do último volume. Com essa cronologia em mente, é muito tentador ler as mudanças de tom da série como resultado do gradual desaparecimento da voz de Pratchett. Mas essa explicação provavelmente é simples demais.

É importante salientar, entretanto, que meus desencantos com a pentalogia são resmungos de alguém que já leu muita ficção científica e talvez tenha esgotado parte da paciência com certos clichês do gênero. Em seu conjunto, trata-se de uma obra bem escrita, imaginativa e genuinamente aventurosa.

E há ainda um interesse humano particular nas circunstâncias de sua produção. Pratchett e Baxter sabiam que trabalhavam contra o tempo. O quinto volume, The Long Cosmos, foi concluído a partir do plano que ambos haviam traçado, e Baxter terminou o trabalho depois da morte do parceiro. Nesse sentido, a série é também o registro de uma amizade e de uma colaboração literária levada até onde foi possível.

Tenho ainda a impressão de que A Terra Longa é um excelente texto de entrada para o mundo da FC. O conceito central é poderoso e imediatamente compreensível, a aventura avança com facilidade e o leitor encontra, quase sem perceber, questões sobre evolução, consciência, sociedade, escassez, colonização e inteligência artificial.

Já li também a tradução brasileira de A Guerra Longa. As edições da Bertrand são bonitas, e a tradução de Ronaldo Sérgio de Biase me parece excelente. A edição brasileira de A Terra Longa, aliás, foi lançada em 27 de agosto de 2018 e também credita a ele a tradução.

Talvez eu ainda retome a viagem. Estou torcendo para que a Bertrand continue a lançar a série em português. Que venham os próximos!

Tem a ver:

Marune: Alastor 933
Notas de um Mochileiro das Galáxias
As Canções da Terra Distante

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