A expressão “fim da história” costuma ser associada a Hegel — ou, mais precisamente, a certas leituras posteriores de sua filosofia da história. Em 1989, Francis Fukuyama deu nova vida ao termo ao argumentar que o colapso das grandes alternativas ao liberalismo poderia estar conduzindo a humanidade ao ponto final de sua evolução ideológica. Não significava que nada mais aconteceria, nem que teríamos alcançado uma sociedade perfeita, mas que a democracia liberal talvez já não tivesse um rival ideológico capaz de se apresentar como modelo universal alternativo.
Como muitos já observaram — inclusive eu mesmo, aqui —, há algo de escatológico nessa ideia. O ponto final da história, a sociedade finalmente reconciliada consigo mesma, a superação definitiva dos grandes conflitos: tudo isso guarda um evidente parentesco de família com velhas aspirações religiosas milenaristas. Parece-me que a confluência entre essas duas imaginações — a política e a religiosa — constitui uma poderosa matriz da ficção científica.
Mas há também uma longa tradição de desconfiança diante desse tipo de utopia. Seus críticos enxergam nela uma espécie de escatologia secularizada: a tentativa de realizar dentro da história aquilo que a religião situava para além dela — de “imanentizar o escaton”. Podemos certamente incluir Piratas do Espaço, de Murray Leinster, entre os descrentes desse paraíso. O livro saiu em Portugal em 1970 como o volume 152 da Colecção Argonauta.
Piratas do Espaço é uma space opera despretensiosa, escrita de forma rigorosamente sequencial e convencional. O romance apareceu originalmente entre fevereiro e abril de 1959 na revista Astounding Science Fiction, sob o título The Pirates of Ersatz, e no mesmo ano foi publicado em livro como The Pirates of Zan. Não espere encontrar nele muitas reflexões filosóficas explícitas. Há, entretanto, uma ideia bastante clara percorrendo a narrativa: viver numa confortável utopia ao estilo do “fim da história” — representada pelo planeta Walden — seria tediosamente sufocante.
Walden resolveu praticamente todos os problemas que deveriam tornar a vida difícil e, ao fazê-lo, parece ter retirado dela algo essencial. Somos informados de que grande parte de sua população sofre com problemas de saúde mental e de que um dos poucos setores realmente dinâmicos da economia é a produção de drogas cada vez mais potentes. A utopia, em Leinster, não produz homens realizados: produz tédio.
Tive duas experiências de leitura bastante diferentes com esse livro. A primeira foi há cerca de vinte anos. Naquela ocasião, achei-o divertidíssimo. Apesar de ser uma história de piratas espaciais, a violência é frequentemente farsesca. Afinal, os piratas descobrem que, no sonolento Walden, são paradoxalmente bem-vindos:
Mas o assalto resultou numa operação muito simples. Os grupos de piratas começaram a proceder ao saque. Os operadores das câmaras atreveram-se a pedir-lhes que se mostrassem através das suas objetivas (...). E pediram muito humildemente aos invasores que autorizassem a captação de imagens enquanto procediam ao saque. Rugindo como selvagens e acrescentando de vez em quando um grito de desafio, os homens transformaram-se em vedetas da televisão (...). Por fim, a polícia viu-se incapaz de conter a pressão da multidão dos espectadores. Rodearam os piratas. Pediram-lhes autógrafos. As raparigas olhavam-nos com os olhos muito redondos — aterrados, mas fascinados. Os jovens sentiram que era muito interessante ajudar a carregar o produto do saque para a nave pirata (pp. 155–156).
Já minha segunda leitura — que acabei de concluir — foi marcada por certo desconforto. O livro agora me pareceu muito mais um artefato ideológico da Guerra Fria: uma sátira de uma sociedade confortável, planejada e pacificada, contraposta à energia vital dos individualistas, aventureiros e empreendedores que chegam para bagunçar tudo. É difícil não perceber aí uma moral política típica de seu tempo.
Curiosamente, essa dimensão envelheceu de uma maneira inesperada. O romance continua reconhecível não porque a Guerra Fria tenha permanecido intacta, mas porque nosso debate político conserva uma extraordinária capacidade de ressuscitar seus fantasmas. Velhos inimigos ideológicos são continuamente retirados do armário, espanados e apresentados como se nunca tivessem ido embora.
Nessa segunda leitura, até coisas que normalmente não me incomodariam se a space opera fosse suficientemente empolgante — flagrantes violações das leis da física, conveniências narrativas e furos do enredo — começaram a chamar minha atenção e a me distrair da história.
Mas uma concessão faço a Leinster: este senhor sabia construir um clímax. E, apesar de todas as minhas novas reservas, mais uma vez ri alto de seus adoráveis piratas.
Leia também:
Comentários
Postar um comentário