Alvíssaras! Um novo volume para a coleção: A História é Outra, de Fritz Leiber (Ed. Expressão e Cultura, 1973). Uma leitura desafiadora. Em um primeiro momento, parece tratar-se de um enredo semelhante ao da “guerra fria temporal” do seriado Star Trek: Enterprise, em que facções de um futuro distante tentam influenciar, em seu benefício, a história presente. Mas a guerra entre Serpentes e Aranhas, as facções descritas por Leiber, não é nada fria. O conceito de “integridade da linha temporal” não faz sentido em A História é Outra: se Roma precisa ser defendida dos bárbaros, por que não usar alguns dispositivos nucleares?
À medida que a narrativa avança, o leitor começa a impacientar-se. Misturam-se soldados romanos, hussardos, oficiais nazistas, localidades, idiomas, “fatos” históricos... mas o livro não parece estar se dirigindo para lugar algum. Em outras histórias envolvendo linhas temporais paralelas, como O Fim da Eternidade, de Asimov, O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick, ou o já citado arco narrativo de Enterprise, o leitor ou espectador recebe pistas suficientes para localizar-se.
Em A História é Outra, contudo, é inútil perguntar: “que História é essa, afinal?”. Essa questão acaba se revelando irrelevante para o desenrolar da narrativa.
A guerra entre Serpentes e Aranhas é descrita como um fenômeno de proporções cósmicas, envolvendo seres conscientes de diferentes espécies, não apenas humanos. O detalhe é que somente uma fração dessas criaturas inteligentes está de fato alistada nas facções em conflito, como ocorre com os personagens da obra. A maioria permanece ignorante do que se passa.
Aqueles que participam conscientemente da guerra vivenciam seus efeitos de forma peculiar, porque estão em posição de ser continuamente atravessados pelas modificações do tempo. Em obras não ficcionais, os tempos modernos já foram descritos por meio de imagens de fluidez ou mesmo de dissolução — como em Modernidade Líquida, de Zygmunt Bauman, ou Tudo que é Sólido Desmancha no Ar, de Marshall Berman. Essas imagens se aplicam muito bem à experiência dos personagens de A História é Outra.
A própria identidade deles encontra-se em permanente estado de fluxo, em decorrência da instabilidade do universo em que vivem. Eles estão conscientes da fragilidade da História tal como a experimentam. Se certo combatente nasceu, por exemplo, em uma cidade da fronteira entre França e Alemanha, sua nacionalidade torna-se quase irrelevante: a linha da fronteira muda constantemente como consequência das intervenções temporais.
A ninguém ocorre discutir qual seria a “linha temporal original”. A ordem natural das coisas, pelo menos para aqueles que participam do conflito, é a própria bagunça temporal — e o leitor que lide com os efeitos disso sobre o texto.
Até que acontece algo imprevisto: os personagens são subitamente cortados das influências da guerra temporal. Sua existência passa então a estar vinculada a uma linha temporal específica e estável. Percebem que estão diante da oportunidade de voltar a viver uma existência ordinária, como aquela que conheciam antes de serem recrutados.
Já que estão desligados das exigências das modificações constantes, poderiam estabelecer vínculos entre si, cultivar amizades, formar uma família... Acabam descobrindo, porém, que não é nada disso que desejam. Passam a ansiar pelas alterações da realidade que transformavam incessantemente suas biografias, memórias e referências.
Já não conseguem abrir mão de existir no Mundo Modificado, pois descobriram o regozijo de um cosmos imprevisível.
A guerra temporal é, afinal, um pretexto para que Leiber nos apresente uma visão do que seria a vida em um cenário sem absolutos, no qual todos os aspectos da existência são relativos ou contingentes — ou pelo menos percebidos como tais.
E mais: no entendimento de um dos personagens, os combatentes representam uma “quarta ordem da evolução”, um novo degrau da vida justamente porque celebram a impossibilidade de constituir interioridades estáveis e de sustentar um projeto fixo de futuro.
Se tivermos em mente quanta FC foi escrita supondo uma direção da História que conduziria à formação de impérios, federações, Gaias, Ecúmenos etc., estaremos em melhores condições de apreciar o quanto essa obra de Leiber é insólita — e até, em certo sentido, profética. Aqui, a história é outra: o caos é o progresso.
Tem a ver:
Estranhamentos em Duna
E quanto ao paraíso?
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