Pular para o conteúdo principal

A PROPÓSITO DE HEINLEIN E DA FC

Tenho empregado repetidamente argumentos do tipo: determinada obra difere das visões mais comuns da FC desta ou daquela maneira, e assim por diante. Acabo de ler, pela primeira vez, Estrela Oculta, de Robert A. Heinlein (Ed. Francisco Alves, 1981; a obra original é dos anos 1950). Eis um livro que reflete muitos desses padrões “comuns”, escrito por um dos “grandes” da FC. É, portanto, uma boa oportunidade para explorar algumas convenções, temas e características que venho considerando centrais a boa parte da FC, especialmente à chamada Era de Ouro.

Escrita simples e linear. Muito interesse pelo que os personagens fazem; relativamente pouco pela sua interioridade. A narrativa avança sobretudo pela ação, pelos acontecimentos e pelos problemas que precisam ser resolvidos.

Progresso. “Mas progredimos, temos de progredir, se queremos chegar às estrelas” (p. 154). Esta obra, isoladamente, não permite estabelecer com precisão o que Heinlein entende por progresso, mas deixa claro que se trata de um conceito orientador importante: a humanidade deve avançar, expandir suas possibilidades e, literalmente, alcançar as estrelas.

Expansão. Ela é imaginada a partir de processos expansionistas já ocorridos aqui na Terra. Em vez de navegar pelos mares, navega-se pelo espaço; novos mundos são alcançados e, neles, encontram-se “nativos”.

Uma das questões do livro diz respeito justamente às relações entre os humanos, que chegaram a Marte, e os marcianos, uma espécie inteligente distinta: “a raça humana jamais deveria cometer os erros que a sub-raça branca cometera na África e na Ásia” (p. 102). A intenção declarada é não repetir os abusos dos antigos imperialismos. Mas permanece a pergunta: como induzir os marcianos a integrarem o Império Terrestre?

Como discute Edward Said a propósito do imaginário imperial norte-americano, pode-se conceber a expansão não como abandono do império, mas como a promessa de um império diferente, supostamente livre dos “erros grosseiros” dos imperialismos europeus anteriores. Na FC, essa lógica reaparece facilmente como uma espécie de “imperialismo esclarecido” em escala cósmica.

Para completar, os “nativos” são apresentados sobretudo como coletividade. Seus indivíduos recebem muito menos caracterização do que os humanos, repetindo uma convenção antiga das narrativas de exploração e aventura: desde Robinson Crusoe, o outro frequentemente aparece como população, tipo ou categoria, enquanto a plena individualidade permanece reservada ao protagonista.

Sexismo. Neste caso, basta uma passagem particularmente explícita: “Meu pai me ensinara que uma mulher perdoa tudo, até tentativa de estupro com violência, mas que se ofende facilmente com uma linguagem chula” (p. 34). A citação dispensa maiores esforços de interpretação.

Entretanto, Heinlein tampouco coincide perfeitamente com aquilo que venho chamando de “centro” da FC. Seu belicismo, por exemplo, é particularmente pronunciado. Ao mesmo tempo, falta-lhe tanto o entusiasmo quase pedagógico pela ciência e por sua divulgação que encontramos em Asimov quanto a disposição para submetê-la a uma crítica filosófica radical, como faz Stanisław Lem — tradição crítica que, em sentido mais amplo, pode ser remontada a Frankenstein e aos próprios primórdios da ficção científica.

Tem a ver:

E quanto aos deuses?
Trombetas da Revolução




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A PROPÓSITO DE MARUNE: ALASTOR 933, DE JACK VANCE

Finalmente, algumas linhas sobre Jack Vance (1916–2013), de cuja obra Star King foi extraído o título deste blog, “Taverna de Smade”. E como é estranho aportar na obra de Vance depois de um mergulho pelo universo de Star Trek ! Este último apresenta um projeto utópico de formação de uma grande comunidade regida por princípios comuns; Vance, por sua vez, parece desconfiar da própria possibilidade de tais princípios, deleitando-se em explorar cenários marcados por tensões entre comunidades — ou indivíduos — de concepções epistemológicas incompatíveis. A apreciação convencional de Jack Vance passa necessariamente por sua linguagem apurada e singular, carregada de “vancismos”. Naturalmente, os que leem Vance em português, como eu, não estão em condições de apreciar completamente esse aspecto. Outra maneira frequente de caracterizá-lo é destacar o sabor antropológico de seus escritos, característica que por vezes o aproxima de Ursula K. Le Guin. ...

COLEÇÃO JORNADA NAS ESTRELAS DA ALEPH - Parte 4

              Ali por 2005, em um fórum de discussão do Orkut, alguém levantou a questão dos volumes finais da coleção Jornadas das Estrelas da Aleph. Fui taxativo: os volumes 21 a 25 não existem! Alguém respondeu que eu estava errado: existiam sim. Foi então que comecei a buscar estes livros pela internet, tendo localizado e adquirido  Mundo de Spock   (vol. 24) naquela ocasião.              O caso é que cada volume da coleção contém, em suas páginas iniciais, uma lista das obras lançadas até então. A versão mais completa dessa lista é a que consta nas páginas iniciais do vols. 24 e 26 (o último). A mesmíssima lista consta em ambos os volumes: dá a impressão de que os editores esqueceram de atualizar a lista que consta no vol. 26, simplesmente usando novamente a lista empregada no volume 24. Até hoje jamais encontrei os volumes 21 e 23 dessa lista (e continuo a...

A VOZ DO MESTRE – STANISLAW LEM

Acabo de reler A Voz do Mestre , de Stanisław Lem (Ed. Francisco Alves, 1991). O texto de Lem é denso e filosófico. Problemas de tradução contribuem para tornar o livro quase impenetrável em certas passagens. Não obstante, é uma leitura fantástica: as explanações a respeito da aleatoriedade, por exemplo, são rigorosas e essenciais para a compreensão da trama. E se fosse percebido um padrão nos bilhões de neutrinos cósmicos que atravessam a Terra a cada instante? Tratar-se-ia de uma mensagem? Eis a premissa de A Voz do Mestre , que nos apresenta os bastidores de um projeto secreto do governo dos EUA destinado a “decifrar” uma “mensagem” recebida das estrelas. Uma legião de cientistas de diferentes áreas é recrutada e instalada numa região desértica dos Estados Unidos. Não é por acaso que Lem, polonês, situa a narrativa na América: há uma intenção mais ou menos explícita de estabelecer um paralelo com o Projeto Manhattan.