Muita ficção científica foi escrita imaginando a interferência, em nosso planeta, de extraterrestres tomados por deuses. A Voz do Mestre (1968), de Stanislaw Lem, trata de uma transmissão de neutrinos — gerada intencionalmente por outra civilização? — que teria permitido o próprio fenômeno da vida na Terra, e talvez em uma vasta região da galáxia, ao aumentar as probabilidades da biogênese. Em 2001: Uma Odisseia no Espaço (também de 1968), Arthur C. Clarke descreve como um artefato de origem extraterrestre — o famoso monolito negro — teria atuado para incrementar a capacidade cognitiva dos pré-humanos.
Realmente, parece que a ideia estava no ar, pois Eram os Deuses Astronautas, de Erich von Däniken, é do mesmíssimo ano de 1968. Alertamos o leitor desde já que este texto se destina a expressar desaprovação pela obra de Däniken. Não se trata propriamente de um livro de ficção — embora possamos frequentemente encontrá-lo assim classificado em livrarias. Trata-se, sim, de um espetacular exemplo de fake news e pseudociência popular, com mais de 70 milhões de cópias vendidas pelo mundo. Mesmo assim, influenciou inúmeras obras de FC, incluindo produções televisivas, notavelmente a franquia Stargate. Toda essa influência — a nosso ver, daninha — justifica tratarmos um pouco mais aqui no blog da hipótese dos “astronautas antigos adorados como deuses”.
Däniken alega revelar verdades profundas cujo reconhecimento seria impedido por um improvável establishment religioso-científico. A ideia, em si, já suscita algum espanto, pois o que frequentemente ocorre é as esferas da religião e da ciência estarem em oposição, como no caso Galileu. Mas, para Däniken, o fato de suas ideias serem combatidas tanto por cientistas como por religiosos — por desafiarem tanto os conhecimentos científicos quanto as narrativas religiosas — seria prova adicional de sua veracidade.
Existe uma obra lançada pela Editora Movimento, aqui de Porto Alegre, em 1972, chamada A Verdade sobre os Deuses Astronautas. O autor, Fernando G. Sampaio, oferece respostas detalhadas e embasadas aos argumentos pseudocientíficos de Däniken. Entretanto, o enfoque que adotaremos aqui será um pouco diferente. Na série de textos A longa sombra do deuses astronautas, iremos tentar entender o que torna as narrativas de contato ancestral tão chamativas, tanto nos escritos de Däniken quanto em textos de FC, apesar de sua flagrante implausibilidade.
Comecemos com o romance O Coração das Trevas (1899), de Joseph Conrad. Harold Bloom observou que é possivelmente uma das obras literárias mais estudadas no meio acadêmico, e isso devido à ambiguidade da escrita de Conrad. Se, por um lado, a obra efetivamente deplora o colonialismo europeu, por outro entrega-se à seguinte fantasia: Kurtz se faz adorar pelos africanos como uma figura quase divina, apoiando seu poder no prestígio da violência, da tecnologia e da autoridade colonial.
Essa fantasia delirante de poder colonial vem sendo fortemente questionada por pensadores pós-coloniais por sua desumanização dos africanos. Não é possível, com seriedade, tomá-la como uma representação historicamente credível, a menos que resgatemos vagas semelhanças com os cultos à carga da Melanésia. Parece ser, antes, uma retomada do mito segundo o qual os habitantes nativos do México teriam considerado seus conquistadores espanhóis como deuses. Trata-se de uma obra ficcional, não de um registro antropológico. Mesmo assim, parece haver algo de muito convincente e satisfatório nessa fantasia, principalmente se você adotar uma visão de mundo em que o colonialismo é considerado uma triunfal missão civilizadora.
O que Däniken faz é tomar um imaginário colonial europeu, ainda corrente nos anos 1960, como paradigma das relações entre extraterrestres e terrestres. Se os nativos africanos adoraram o Sr. Kurtz, devidamente impressionados por seus truques e aparatos, também nós, humanos, o fizemos com nossos visitantes cósmicos. As atividades dos ETs, para Däniken, teriam coincidido amplamente com as dos colonizadores europeus: a exploração de recursos naturais, o oferecimento de “avanços” civilizacionais e tecnológicos aos “primitivos” e mesmo a observação em busca de conhecimento (“antropologia”).
Narrativas similares abundam na FC, e algumas delas até conseguem problematizar esse tropo de forma interessante. A questão toda é que Däniken não está fazendo FC: ele alega desvelar verdades ocultas. Seu raciocínio ampara-se numa lógica hierárquica de “raças superiores” que melhoram “raças inferiores”. Os extraterrestres, “superiores” por definição, não teriam exercido sua influência de forma uniforme sobre as populações do planeta. As populações por eles escolhidas e “melhoradas” teriam sido “elevadas” a um novo patamar, “civilizado”, mais “evoluído” em relação aos demais grupos humanos, que teriam permanecido “primitivos” — o que, dentro dessa lógica, serviria para explicar o abismo entre as nações ditas desenvolvidas e as demais. Isso tudo através, inclusive, de procriação seletiva entre os deuses-astronautas e fêmeas humanas selecionadas...
Em A Verdade sobre os Deuses Astronautas, Sampaio trata desse pormenor em capítulo intitulado, com muito acerto, “Um pouco de nazismo”. Hoje, porém, estamos mais conscientes de que tais pressupostos racistas não constituem uma exclusividade do nazismo, mas integram estruturas mais amplas de hierarquização humana presentes em muitas sociedades. Mesmo assim, Eram os Deuses Astronautas ainda pode ser encontrado, em novíssimas edições, nas livrarias. Repetimos: é uma obra que defende que as raças humanas ditas “superiores” são aquelas descendentes de extraterrestres! Sim, vivemos em tempos de pós-verdade...
No recentíssimo A Vida Não É Útil (2020), Ailton Krenak faz breves comentários, temperados de ironia, sobre tal hipótese. Seria a ancestralidade alienígena a razão pela qual certos povos se sentem distintos da natureza, dotados de uma qualidade especial ausente nas demais criaturas do planeta? Seria essa a explicação para a insensibilidade das nações industrializadas diante da vida na Terra e para sua disposição em destruí-la?
Krenak oferece aquela que talvez seja a melhor resposta possível a Däniken, que parafraseamos da seguinte forma: se isso tudo fosse verdade, o melhor que esses descendentes dos astronautas antigos poderiam fazer seria encontrar logo uma maneira de ir para Marte, ou qualquer outro lugar que pudessem continuar a explorar, deixando novamente a Terra para seus habitantes originais. E não deixa de ser uma ideia muito boa, de certa forma: Jorge Luiz Calife a explora em sua obra.
A série Uplift (Elevação), escrita por David Brin entre 1980 e 1998, é também herdeira dessa problemática. Está quase inteiramente disponível em português na coleção de FC da editora portuguesa Europa-América. A exceção é Sundiver, o primeiro livro da série, que não recebeu tradução. Os demais — Maré Alta Estelar, A Guerra da Elevação, Filhos do Exílio, Fronteiras do Infinito e O Céu como Limite — foram publicados pela Europa-América em dois volumes cada, de modo que a edição portuguesa da série soma dez volumes. Como se trata de publicação relativamente recente, nem todos aparecem com facilidade nos sebos brasileiros; tive de importar alguns... doeu no bolso!
O conceito central da série é o de “elevação”: processo pelo qual uma espécie sapiente — no sentido de consciente, inteligente e capaz de comunicação — dota outra espécie desse mesmo “dom”, por meio de engenharia genética e outros processos. Em contrapartida, a espécie cliente fica vinculada à espécie patrona por um período determinado — digamos, 100.000 anos —, prestando-lhe serviços. Uma das relações patrono-cliente apresentadas é a que liga humanos e golfinhos: os primeiros conferem sapiência aos segundos e empregam sua mão de obra na pilotagem de naves espaciais, aproveitando capacidades de orientação tridimensional já presentes nos cetáceos.
Aqui, o problema já não é o racismo no sentido estrito, pois não se trata de diferenças entre grupos humanos “elevados” e “não elevados”, como em Däniken. Permanece, porém, a crença de alguns seres em possuir uma qualidade especial que os distingue do restante do mundo natural — como observa Krenak —, além da exploração de uma espécie por outra.
Evidentemente, chamar de “cliente” a espécie submetida a esse processo é quase um eufemismo. Um cliente pode, em tese, decidir se deseja ou não um produto ou serviço; no universo de Uplift, porém, os “clientes” não são consultados. Os golfinhos não tiveram a oportunidade de deliberar se a “dádiva” da sapiência valia a pena: os humanos simplesmente decidiram “elevá-los” e dispor de sua mão de obra especializada. A justificativa é circular: eles não poderiam consentir justamente porque ainda não eram considerados “sapientes”. Mas quantas vezes, na história humana, decisões cruciais não foram tomadas em nome de outros povos sob o argumento de que estes não estavam aptos a compreender o que estava em jogo?
As espécies patronas dispõem não apenas dos serviços das espécies clientes, mas também de sua devoção. Acima de todas pairam os míticos Progenitores, supostos iniciadores do processo de elevação de todas as demais espécies em um passado remoto. Presentemente retirados da cena galáctica, aguardam o fim dos tempos para então retornar e julgar os méritos das espécies remanescentes... Vejam como é difícil manter os deuses-astronautas fora do tabuleiro!
Brin parece adotar uma concepção teleológica segundo a qual a sapiência funcionaria como uma espécie de meta da evolução — definida, evidentemente, pelas próprias espécies que já se consideram sapientes. Assim, ao “elevarem” os golfinhos, os humanos estariam somente acelerando um processo natural e inevitável já em andamento. Esse é um ponto de vista cientificamente indemonstrável — embora seja bastante disseminado no senso comum.
A própria pergunta “como provar que os humanos são mais evoluídos que os golfinhos?” parte de uma premissa equivocada: em termos evolutivos, essa comparação sequer faz sentido. Já discutimos em postagens anteriores: é uma forma de antropocentrismo considerar os atributos cognitivos humanos como a meta das demais espécies do planeta, ou mesmo considerar que tais atributos encontrem análogos evidentes em formas de vida extraterrestres que possam ser encontradas.
Recomendo a leitura dessas obras de Brin, que considero instigantes e muito bem escritas. Não obstante, há momentos de grande desconforto: a narrativa parece, em alguns momentos, naturalizar e justificar relações imperialistas a partir da atribuição de diferentes graus de valor às capacidades cognitivas das espécies. Não sei até que ponto essa leitura se sustenta, porque nunca tive oportunidade de discuti-la com outros leitores da série — fica o convite!
Claro está que há um mar de diferenças entre a série Uplift e Eram os Deuses Astronautas. Ainda assim, parece-me que a segunda lança uma sombra longa sobre a primeira.
Continua aqui: E quanto aos deuses? — parte 2
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