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O ARTISTA DE GÊNERO - Carlo Rotella sobre Jack Vance

O ARTISTA DE GÊNERO

The Genre Artist — Carlo Rotella (2009)

Original: The New York Times Magazine

Traduzido por Marcelo Rabello dos Santos (out. 2022)

Jack Vance, descrito por seus pares como um autor genial e o maior escritor vivo de ficção científica e fantasia, está escondido à plena vista enquanto publica — seis décadas e contando. (Nota do tradutor: Jack Vance faleceu em 2013.) Sim, ele foi premiado com o Hugo, o Nebula e o World Fantasy, foi nomeado Grão-Mestre pela Science Fiction and Fantasy Writers of America e recebeu um Edgar da Mystery Writers of America, mas tais honrarias apenas contribuem para camuflá-lo, como se Vance fosse apenas mais um autor de nicho bem-sucedido.

Também contribuem para essa ocultação as capas de seus livros, recheadas de clichês — espaçonaves, monstros e eufônicas designações de lugares: Lyonesse, Alastor, Durdane. Se você nunca leu Vance e está vasculhando a prateleira de uma livraria, pode não ter nenhum motivo especial para escolher um de seus livros em vez de um de A. E. van Vogt ou John Varley. E, se escolhesse uma dessas outras obras, seguiria tranquilamente pelos caminhos habituais da FC sem ter a menor ideia de que acabara de perder um encontro com uma das vozes mais distintas e menos valorizadas da literatura norte-americana.

Ou, pelo menos, é assim que os fãs de Vance o veem. Entre eles estão autores que conquistaram fama e recompensas financeiras das quais Vance nunca desfrutou. Dan Simmons, escritor de best-sellers de horror e fantasia, descreveu seu encontro com Vance como uma revelação comparável à descoberta de Proust ou Henry James. Comparou a experiência a ser lançado diretamente numa piscina, sem aviso: de repente, por meio de sua linguagem perfeitamente apurada, a prosa de Vance mergulha o leitor em um novo mundo. Para Simmons, se Vance tivesse nascido ao sul da fronteira, estaria concorrendo ao Prêmio Nobel.

Michael Chabon, autor de distinta reputação — o que lhe permite empregar fórmulas populares sem ser rotulado como escritor de gênero —, disse-me: “Jack Vance é o caso mais doloroso, dentre todos os escritores que amo, de um autor que não recebe o crédito que merece. Se The Last Castle ou The Dragon Masters fossem assinados por Italo Calvino, ou simplesmente por um nome estrangeiro, seriam recebidos como profundas reflexões; mas, porque ele é Jack Vance e é publicado em revistas de segunda categoria, existe essa barreira intransponível.”

A barreira não se mostrou intransponível para outros escritores de gênero, como Ray Bradbury e Elmore Leonard, que conquistaram o respeito da crítica enquanto produziam obras literárias confortavelmente inofensivas, ou como H. P. Lovecraft e Raymond Chandler, escritores pulp cuja reputação póstuma cresceu com o tempo e que acabaram adquirindo o status de produtores de alta cultura.

Mas cada um desses escritores, por mais inovador ou poético que fosse, ingressou no mainstream literário mediante a plena exploração das potencialidades do gênero em que se especializou. Vance, por outro lado, trabalhou inteiramente dentro de formas populares, mas sem prestar muita atenção a suas convenções ou fronteiras. Sua ênfase recai sobre a nota inesperada, a batida estranha.

Seus foguetes são apenas pretextos para deslocar os personagens de uma sociedade convincentemente imaginada para outra; quando se trata de cenas de batalha ou de outras situações potencialmente eletrizantes, ele prefere resumi-las sucintamente. Seu maior prazer está na musicalidade do texto, que emprega para explorar a abundante capacidade humana para a patifaria.

Um exemplo: “Ao aproximar-se dos campos mais afastados, movia-se cautelosamente, esgueirando-se entre as moitas e as árvores, e logo encontrou o que procurava: um camponês revirando o solo úmido com uma enxada. Cugel avançou silenciosamente e abateu o incauto com uma raiz retorcida”.

Mesmo quando Vance joga segundo as regras de qualquer gênero em que trabalhe, seu verdadeiro gênero é a narrativa de Jack Vance.

Seus leitores fiéis são ferozmente apaixonados. Foi por iniciativa deles que, no final da década de 1990, uma equipe se reuniu para compilar a Vance Integral Edition, um belo conjunto de 45 volumes das obras completas em edições definitivas e anotadas.

Liderados por Paul Rhoads, pintor americano radicado na França — cuja recente avaliação crítica de Vance, Winged Being, o compara, entre outros, a Oswald Spengler e Jane Austen e o unge como o anti-Paul Auster —, os voluntários da V.I.E. compararam meticulosamente edições e manuscritos do autor para restaurar a prosa corrompida pelos editores.

Vancianos hard-core também criaram a Totality (pharesm.org), um site no qual se podia pesquisar o texto completo da V.I.E. e descobrir, por exemplo, que Vance empregou a palavra “punctilio” exatamente 33 vezes em sua prosa publicada. Foi uma extraordinária demonstração de verdadeiro amor dos leitores: um grupo de aficionados oferecendo a um escritor de gênero contemporâneo, ainda em vida, o mesmo tratamento dispensado a um Shakespeare.

Vance, então com 92 anos, dizia que seu novo livro — um volume de memórias, This Is Me, Jack Vance! — seria definitivamente o último. Também chegaria em breve às livrarias Songs of the Dying Earth, uma coletânea de histórias de outros autores ambientadas no futuro longínquo que Vance introduzira em algumas de suas primeiras narrativas publicadas, originalmente rabiscadas numa prancheta no convés de um cargueiro no Pacífico Sul, quando servia na marinha mercante durante a Segunda Guerra Mundial.

Entre os colaboradores da coletânea estavam estrelas da FC e autores de best-sellers, como Simmons, Neil Gaiman, Terry Dowling, Tanith Lee, George R. R. Martin e Dean Koontz. É como um álbum de tributo em que os participantes reconhecem a influência de um venerável e semiobscuro tesouro nacional fazendo covers de suas canções.


Agora você talvez esteja pensando: se Vance é tão bom quanto Simmons, Chabon e Rhoads dizem, e se recusou a ceder às exigências dos gêneros em que trabalhou, talvez tivesse se saído melhor caso explorasse formas que recompensassem mais diretamente seus pontos fortes. Não é uma pena que tenha se limitado a gêneros adolescentes, nos quais seus talentos não poderiam realmente brilhar?

Mas creio que essa pergunta parte de pressupostos errados: errados sobre Vance, sobre o conceito de gênero e sobre aquilo que “adolescente” e “adulto” significam quando falamos de sensibilidade literária.

Quando eu tinha cerca de 14 anos, no final da década de 1970, conhecia um sujeito descolado que sempre sabia de coisas mais interessantes do que qualquer coisa que seus amigos estivessem ouvindo, fumando ou lendo. Na época, eu estava bastante impressionado comigo mesmo por ter passado de Tolkien para E. R. Eddison e Michael Moorcock.

“Coisa de criança”, disse meu colega. “Experimente isto.”

Ele me entregou uma edição em brochura de The Eyes of the Overworld, de Vance. Na capa, uma criatura gigantesca, semelhante a um lagarto, debruçava-se sobre um barco a remo que levava um homem trajado segundo as convenções da espada e feitiçaria e uma mulher rechonchuda usando um traje de banho revelador.

Lembro-me exatamente das linhas da segunda página que me fisgaram para sempre: um diálogo entre dois vendedores de curiosidades mágicas em um bazar:

“Posso resolver sua perplexidade”, disse Fianosther. “Seu estande está sobre o local de um antigo patíbulo e absorveu essências de azar. Não pude deixar de notar que você observava a maneira como as madeiras da minha cabine estão seladas de modo a evitar tal infortúnio. Terá uma visão melhor se entrar, mas primeiro permita-me encurtar a corrente do erb cativo que percorre as instalações durante a noite.”

“Não é necessário”, disse Cugel. “Meu interesse era transitório.”

A polidez ferina e sinistra, o casamento da linguagem pomposa com os motivos baixos, a maneira como as frases secas de Cugel completavam as ornamentadas de Fianosther — senti-me aprisionado pelo estilo de um escritor de uma forma que nunca havia experimentado. Vance nem precisou descrever o “erb cativo”. A própria expressão evocava fileiras de dentes e a força terrível de um corpo comprido e musculoso.

Mais adiante, encontramos Cugel em Smolod, uma aldeia cujos habitantes usam lentes oculares mágicas que transformam seu ambiente fétido em um lugar de aparente esplendor. As lentes são relíquias da incursão do demônio Unda-Hrada, proveniente do submundo de La-Er, durante as Guerras Cutz do 18º Éon.

“Lembro-me vagamente de que habito um chiqueiro e devoro os alimentos mais grosseiros”, admite um ancião, “mas minha realidade subjetiva é a de que habito um palácio glorioso e saboreio iguarias magníficas entre príncipes e princesas que são meus iguais”.

É uma configuração tipicamente vanciana: alguns traços conceituais ousados, descrições maduras e nomes evocativos combinam-se para realizar plenamente um lugar bizarro que parece real — em parte porque a linguagem substancial lhe confere presença, mas também porque todo leitor vive, de certo modo, em algum lugar semelhante.

Cugel consegue roubar uma única lente antes de fugir de Smolod à frente de uma multidão enfurecida. É apenas sua primeira aventura durante a jornada pela Terra agonizante, um reino de maravilhas cínicas no qual os últimos exemplares da civilização humana continuam ocupados com o velho negócio de mentir, trapacear e roubar para satisfazer seus desejos mesquinhos enquanto o sol enfraquecido vacila em direção às trevas finais.

Li o livro tomado por um delírio extasiado e fui procurar mais. Além da fantasia picaresca, Vance escreveu fantasia científica, romance planetário, mistério extraterrestre, sagas de vingança e histórias de aventura especulativa ainda menos classificáveis. Sua obra vai do conto ao romance em vários volumes.

Escreveu ainda 11 romances policiais sob seu nome de batismo, John Holbrook Vance, e mais três sob o pseudônimo coletivo Ellery Queen. Por um breve período, no início da carreira, trabalhou como roteirista da série televisiva Captain Video. Algumas de suas histórias também chegaram às telas ao longo dos anos, mas Hollywood nunca devorou sua obra como devorou, por exemplo, a de Philip K. Dick.

Parte desse desinteresse de Hollywood por Vance pode decorrer de uma leitura simplista do autor como estilista barroco cuja escrita dependeria principalmente da linguagem para produzir seus efeitos, e não do enredo, dos personagens ou das premissas.

Vance acredita que o fluxo musical da linguagem é muito importante para contar histórias — “a prosa deve balançar”, disse-me mais de uma vez —, mas há sempre algum problema social ou cultural movendo-se por trás da ação e convidando o intelecto a interromper-se por um instante e refletir.

As Linguagens de Pao, por exemplo, desenvolve a proposição de que a linguagem de um povo pode ser manipulada de modo a torná-lo mais belicoso; O Planeta dos Dragões busca uma analogia entre manipulação genética e sofisticação estética.

Vance também pode silenciar ou sabotar a ação com uma observação psicológica certeira. Depois de caçar um dos gênios do mal responsáveis pelo massacre de sua família, o herói do ciclo dos Príncipes Demônios mostra-se tão combalido que sua companheira lhe pergunta se está bem.

“Muito bem”, responde ele nas linhas finais do quinto e último romance. “Esvaziado, talvez. Fui abandonado pelos meus inimigos. Treesong está morto. O assunto está encerrado. E eu estou acabado.”

Raramente um herói de FC alcança a linha de chegada com tão pouco estrépito.

A trama intrincada não é o forte de Vance, mas ele recombina habilmente certos elementos: os ritmos da viagem; os prazeres da música, da bebedeira e da vingança; encontros melindrosos com pedantes, salteadores, estetas, fanáticos de tendências violentas, rufiões, patifes de todos os tipos e jovens esbeltas com o enigmático hábito de olhar para trás por cima do ombro.

Suas histórias mantêm um impulso anedótico no qual se equilibram o prazer digressivo de imaginar um mundo e o efeito hipnótico de seu tom peculiar, descrito de várias maneiras: farpado, aveludado, afetado, mandarinesco.

Mesmo com todas as brincadeiras e palavras inventadas, ler Vance é uma experiência imbuída de certa formalidade, como se o leitor estivesse presente em algum evento acadêmico de grande solenidade. E ela ensina uma lição duradoura sobre o ofício do escritor: não importa o que esteja estampado na capa, é sempre possível mirar mais alto.


Acontece que minha reação inicial à prosa de Vance, numa idade impressionável, é bastante comum. Alguns dos célebres autores de fantasia que contribuíram para Songs of the Dying Earth contaram-me histórias semelhantes.

Dan Simmons tinha 12 anos quando seu irmão mais velho lhe permitiu ler O Planeta dos Dragões, na memorável ocasião em que se sentiu atirado na piscina. Neil Gaiman tinha 12 ou 13 anos quando encontrou um conto de A Agonia da Terra.

“Eu me apaixonei pelo estilo da prosa”, disse Gaiman. “Era elegante, inteligente; cada palavra parecia saber o que estava fazendo. É engraçado, mas nunca, nunca perde a compostura.”

Tanith Lee contou-me que, aos vinte e poucos anos, era “uma grande desajustada, de coração melancólico” e já sabia que queria escrever. Sua mãe lhe deu A Agonia da Terra, o que a incentivou ainda mais a explorar o universo da literatura.

“Adorei o humor negro, a elegância e adorei a pura maldade. E, quando cheguei a Cugel, eu o amei. Ele era uma tábua de salvação.”

Depois que conversamos, ela me enviou por e-mail uma de suas citações favoritas de Vance: “Eu daria os parabéns, não fosse esse tentáculo segurando minha perna”.

Michael Chabon tinha 12 ou 13 anos quando leu The Dragon Masters. Para ele, Vance pertence “a uma autêntica tradição americana, importante e poderosa, mas menos reconhecida. Não é a tradição Twain-Hemingway; aproxima-se mais da tradição de Poe, uma combinação de refinamento europeu com a atitude de um cowboy pronto para a briga”.

“Imagino um marinheiro de camisa azul, jeans e gorro sentado no convés de um navio no Pacífico Sul, antevendo, um milhão de anos no futuro, um mundo detalhado e agonizante. A prosa não é apenas refinada, mas muito madura. Vance possui vigor narrativo, uma disposição para olhar friamente para a violência e a crueldade, sem se esquivar.”

Chabon contrastou Vance com Tolkien e C. S. Lewis, “autores britânicos que compartilhavam um grandioso impulso de sintetizar a mitologia de uma cultura. Não há nada disso em Vance. O engenheiro nele está sempre à vista. Ele também é um criador de histórias de aventura, como os britânicos, mas suas narrativas são sempre quebra-cabeças de resolução de problemas”.

“Há sempre nelas algo daquela estrutura de ‘se A é igual a B, então...’, como num silogismo. Vance possui aquele amor pela lógica de Poe, um espírito de engenharia ianque casado com um amor erudito pela pompa e pelo pedantismo. E tem um ouvido incrível: escreve lindas frases.”

A maioria desses escritores era adolescente quando leu Vance pela primeira vez, e isso despertou neles o apreço pelas possibilidades artísticas da linguagem. Literatura adolescente não precisa significar apenas prosa simplória que explora emoções intensas para leitores emocionalmente inexperientes.

Pode significar também uma escrita que inspira os primeiros despertares conscientes da sensibilidade literária. Então, sim, Vance trabalhou exclusivamente em gêneros juvenis — se incluirmos nessa rubrica a experiência transformadora de se apaixonar pela primeira vez por uma bela frase.


Vance vive nas colinas de Oakland, numa casa que demoliu e reconstruiu ao longo dos anos de maneira idiossincrática. Tem reputação de recluso, e os encontros entre estranhos em suas histórias muitas vezes são truculentos.

Um diálogo entre cliente e funcionário: “Seus métodos estão incorretos. Como entrei primeiro no recinto, você deveria ter atendido primeiro às minhas demandas.” O funcionário pisca e responde: “A ideia, devo confessar, tem uma ingênua simplicidade a seu favor.”

Enquanto subia a calçada íngreme numa tarde cinzenta de inverno e um cachorro grande latia à minha aproximação, tentei expulsar a expectativa irracional de que Vance e eu trocaríamos diálogos vancianos.

Eu: “Por que você insistiu em escrever bolodórios da variedade mais trivial para infantilóides obtusos?”

Ele: “A questão é nuncupatória. Estou cansado de suas importunações. Vá embora.”

Mas ele foi gentil e me presenteou com histórias sobre suas aventuras nos mares do Sul. Estava sentado numa cadeira de balanço diante da escrivaninha, protegido do frio por um blusão e um gorro, com um cobertor sobre os ombros, um aquecedor aos pés e chinelos.

A velhice o curvara e diminuíra, mas sua voz profunda ainda carregava um tom de autoridade. Passava os dias à mesa, ouvindo romances policiais gravados — estava cego desde a década de 1980 —, falando ao telefone quando alguém ligava e ouvindo ou tocando o jazz tradicional que adorava.

Em determinado momento da visita, puxou um ukulele barítono da prateleira de instrumentos de corda atrás de si e dedilhou-o casualmente enquanto cantarolava uma animada cantiga galante. Também tocava — ou tocara — gaita, washboard, kazoo e corneta.

Ao contrário de muitos de seus personagens, sempre inclinados à fanfarronice — “Sou versado em quatro infinitos e ocupo um assento no colegiado” —, Vance apresenta-se como um sujeito prático e realista.

Esquivou-se de minhas perguntas sobre as cartas de admiradores guardadas em seus arquivos — recebidas de gente como a jovem Ursula Le Guin, o bilionário do software Paul Allen e o designer de jogos Gary Gygax, cujo Dungeons & Dragons deve muito a Vance. Preferiu explicar-me como, certa vez, ergueu uma casa flutuante usando um compressor de ar e oito tambores de 200 litros.

Vance nunca ficou rico, mas ganhou o bastante para sustentar sua esposa, Norma, que morrera no ano anterior depois de 61 anos de casamento, e o filho, John, hoje engenheiro.

A família viajava com frequência para lugares exóticos — Madeira, Taiti, Cidade do Cabo, Caxemira —, onde se hospedava em acomodações baratas pelo tempo necessário para que Vance escrevesse outro livro.

“Ficávamos escondidos por algumas semanas, às vezes meses”, contou-me John. “Ele tinha sua prancheta; ela, a máquina de escrever portátil. Ele escrevia à mão e ela datilografava. Primeiro rascunho, segundo rascunho, terceiro rascunho.”

Ter uma boa vida como escritor era extremamente importante para Vance, que nasceu numa família de São Francisco que atravessou tempos difíceis. Crescendo durante a Grande Depressão na fazenda dos avós em Little Dutch Slough, na região portuária a leste da cidade, desenvolveu cedo o amor por veleiros, habilidades manuais e ficção.

Admirava as histórias marcianas de Edgar Rice Burroughs sobre John Carter e esperava ansiosamente, todos os meses, pela chegada da nova edição de Weird Tales, revista pulp que publicou autores fundamentais da fantasia como Lovecraft, Robert E. Howard, C. L. Moore e Clark Ashton Smith.

Vance frequentou a Universidade da Califórnia em Berkeley, mas sua educação prática como escritor veio da leitura das revistas pulp e de obras como a série Oz, de L. Frank Baum, os romances corteses de Jeffery Farnol e a comédia leve de P. G. Wodehouse — seu herói literário.

Além do domínio dos efeitos de tom e de uma propensão a criar megeras formidáveis, Vance parece ter pouco em comum com Wodehouse, sobretudo no que diz respeito à visão da natureza humana. Seus personagens compartilham uma qualidade sombria e gananciosa e raramente hesitam diante da crueldade.

Em Araminta Station, primeiro romance de sua trilogia ecopolítica Cadwal, Vance cita The Worlds of Man, estudo publicado pelo Instituto Fidelius:

“Em nossas viagens de uma extremidade do Braço Gaeano à outra e, às vezes, ao Além, não descobrimos nada que indique que a raça humana esteja, em toda parte e inevitavelmente, tornando-se mais generosa, tolerante, gentil e esclarecida. Absolutamente nada.”

Vance contou-me que ele e sua família sempre encontraram boa acolhida e boa companhia em suas viagens, comendo e bebendo muito bem e contemplando a beleza do mundo. O que, então, inspirara a maldade interpessoal endêmica de sua obra? Ele se recusou a especular, mas seu filho disse:

“Acho que isso veio da época em que a família perdeu todo o dinheiro e eles tiveram de lidar com todo tipo de gente. Os tempos eram difíceis, as pessoas eram rudes. Meu palpite é que esse padrão venha de suas experiências nos primeiros anos, na Califórnia e na marinha mercante.”

Vance orgulha-se de seu ofício, mas evita discuti-lo em detalhes. Ao recordar sua vida, mergulha profundamente no passado, fazendo com que toda a discussão sobre o êxito de sua carreira literária se reduza a um breve capítulo final.

Jeremy Cavaterra, compositor que mora em um apartamento anexo à casa de Vance e ajuda a cuidar dele — e que se tornou fã ardoroso depois de ler The Eyes of the Overworld aos 14 anos —, comentou essa reticência: “Em parte, ele é como um mágico que não quer revelar seus truques, mas também é verdade que escreve intuitivamente e evita racionalizar demais a atividade.”

A persistente resistência de Vance a falar de si mesmo como fantasista também pode remontar à própria adolescência, quando chegou ao ensino médio muito jovem, depois de pular uma série. O jovem desajeitado com um mundo inventado na cabeça é personagem recorrente de sua obra, assim como a cena de garotos populares atormentando um solitário.

O mais prolífico homicida entre seus estranhos sonhadores é provavelmente o Príncipe-Demônio Howard Alan Treesong, que discursa nas múltiplas vozes de avatares imaginários e aterroriza uma reunião escolar.

Norma costumava dizer que seu marido era Treesong. John, por sua vez, diz que o pai prefere imaginar-se como um Cugel, porém menos covarde. Junte os dois — o sonhador Treesong e o malandro Cugel — e você terá Vance, cuja longa carreira nasceu de uma descoberta da juventude: como transformar devaneios ociosos em arte deliberada e arte em produção remunerada.

Em determinado momento da visita, Vance começou a perder as palavras. Gesticulou em direção ao bar e disse: “Vá tomar um gole de uísque puro malte”. Depois riu e acrescentou: “Há uma palavra que não consigo lembrar para descrever isso. Tem um sentido de domínio estético, de comando, mas também de pensar muito bem de si mesmo.”

Sua antiga favorita, punctilio, veio-me à mente, assim como hauteur — registrada 16 vezes na Totality —, mas, como nenhuma das duas parecia adequar-se exatamente à definição, achei melhor não dizer nada.

Durante nossa conversa, Vance já havia desdenhado de várias pessoas — incluindo dois célebres escritores de ficção científica que eu crescera lendo — como idiotas ou exibicionistas. Oferecer a palavra errada poderia me qualificar como ambos.

Fui buscar minha bebida enquanto ele continuava tentando distinguir os contornos da palavra perdida. Talvez ela não esteja perdida para sempre. Pode muito bem ressurgir algum dia na prosa de Michael Chabon, de algum dos colaboradores de Songs of the Dying Earth ou de Ursula Le Guin. Talvez até na minha.

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