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E QUANTO AO PARAÍSO?

Descrevo a seguir cinco visões genéricas a respeito do sentido da história, tais como podem ser encontradas em obras de ficção especulativa — categoria que abrange também a FC. Uso a expressão “paraíso” em sentido não religioso: um estado geral de coisas absolutamente desejável, uma sociedade ideal. Mas a escolha da palavra não é acidental, pois há relações profundas entre a ficção especulativa e o pensamento religioso.

1. O paraíso está no passado.

Esse tipo de esquema pode ser encontrado, por exemplo, na obra de Tolkien. Como é melancólico o momento em que os últimos elfos deixam a Terra-média, ao final de O Senhor dos Anéis! Trata-se do fim de uma era gloriosa que jamais retornará. A raça dos homens, por valorosa que seja, não pode aspirar às perfeições élficas, que agora pertencem definitivamente ao passado.

Como seria de esperar, essa visão é menos comum na FC, gênero que prefere discutir as perfeições futuras. Mas há exceções, como Clifford Simak, que frequentemente idealizava o passado rural dos Estados Unidos e demonstrava pouco entusiasmo por concepções lineares de progresso.

Uma variante desse esquema sustenta que o paraíso perdido deve ser recriado por algum programa de regeneração dos costumes e rejeição dos valores modernos. Trata-se de uma concepção recorrente na literatura do fundamentalismo religioso contemporâneo. Essa visão simplista está ausente dos escritos de Tolkien, nos quais o passado é incorporado ao presente por meio da memória, da tradição e da cultura, e não pela rejeição sumária do presente.

2. O paraíso está no futuro.

É a visão predileta da Era de Ouro da FC: versões tecnológicas da Parusia, combinadas com aspirações do cosmismo e algumas pitadas de Destino Manifesto. A história teria uma finalidade desejável, um traçado ótimo que conduziria à conquista do espaço, ao fim da morte e às utopias de sociedades perfeitas, como a Federação Unida de Planetas de Star Trek.

Se considerarmos, porém, que o “paraíso” está no futuro em sentido irônico, chegamos às distopias à la Orwell. O distopista não argumenta necessariamente que o paraíso esteja no passado; adverte, antes, que a tentativa de construir o paraíso no futuro pode produzir resultados bastante diferentes dos pretendidos.

3. Paraísos contingentes.

A história não teria uma meta ou um objetivo final conhecido. Os seres humanos serão continuamente desafiados pelas circunstâncias, e nenhuma configuração social pode cristalizar-se pela eternidade. O universo é imprevisível. Aqui encontramos, por exemplo, certas obras de Jack Vance, Frank Herbert e Cixin Liu. Não haverá um paraíso — e, se houver, não será por muito tempo. Não há garantia de que os bonzinhos vençam no final, até porque não há final.

4. Não estamos indo a lugar algum, paraíso ou inferno.

É o universo de Star Wars, oscilando eternamente. A meta é o equilíbrio. Não há possibilidade de uma síntese dialética duradoura entre os lados opostos da Força. Nenhum deles jamais vence definitivamente. Logo, sobra pouco espaço para conceitos históricos de longo prazo como evolução ou progresso. É um universo em que, no plano das grandes estruturas, os mesmos conflitos retornam ciclicamente. O foco recai sobre as aventuras dos indivíduos.

5. Paraísos secretos e/ou exclusivos.

A História é um engodo, e suas promessas são mentiras. Toda a agitação social dos homens é apenas uma cortina de fumaça. A Redenção consiste em rasgar o véu das ilusões, em um momento de verdade total. O Paraíso é um estado secreto, alcançado pela súbita revelação individual.

Eis o universo de Philip K. Dick, no qual personagens de existência perfeitamente banal estão sujeitos à irrupção do transcendente. PKD chegou a afirmar: “o Império Romano nunca terminou!”. Vivemos sob a mais brutal das opressões, mas não chegamos a percebê-la, iludidos por narrativas fantasiosas de progresso.

Quando enunciadas por um autor marginal de um gênero literário também marginalizado, tais ideias assumem o valor de uma interpelação dos sistemas de poder. Grandes empresas, corporações, governos, religiões... Nenhum deles escapou a PKD, o que contribuiu para transformá-lo em um ícone da contracultura e, posteriormente, em uma espécie de precursor literário da sensibilidade pós-moderna. Mas sua desconfiança das grandes narrativas também pode ser apropriada como argumento contra a própria possibilidade de utopias compartilhadas.

Se os esquemas 1 e 2 guardam parentesco evidente com especulações escatológicas monoteístas, o esquema 5 aproxima-se do gnosticismo e do neoplatonismo. O esquema 4, por sua vez, pode lembrar certas leituras ocidentais e simplificadas do taoismo, sobretudo pela ênfase no equilíbrio.

Como esse ponto de vista (5), de origens herméticas, pôde tornar-se tão proeminente em nossos dias? Pois não se trata apenas de literatura, mas também de cinema e de muitas outras expressões do zeitgeist. Uma explicação possível é que a cultura estadunidense, hoje globalmente influente, seja ela própria permeada por formas de imaginação gnóstica.

Harold Bloom identifica, em movimentos religiosos dos Estados Unidos, importantes pendores gnósticos. Como discute em A Religião Americana, tais movimentos frequentemente enfatizam a experiência individual da conversão e da revelação. Em algumas dessas tradições, o verdadeiro fio da história não seria aquele descrito pela historiografia comum, mas outro, cifrado na literatura apocalíptica. A história visível torna-se, assim, uma espécie de superfície sob a qual se desenrola o conflito decisivo entre forças ocultas.

As complicadas conspirações de PKD, que davam forma tecnológica às suas obsessões com realidades ocultas e sistemas de controle, acabaram extravasando para a cultura de massa. A religião, em suas variedades negacionistas e mercantis, circula agora também por correntes de WhatsApp. Documentários que misturam ETs e espiritualidade, impecavelmente produzidos, são distribuídos em plataformas de streaming. Nos Estados Unidos, QAnon transformou fantasias conspiratórias difundidas pela internet em fenômeno político. Aqui no Brasil, até velhos enredos de Arquivo X que relacionam vacinas e microchips encontraram estranha sobrevida e precisaram ser desmentidos pelos telejornais.

Projetos coletivos de paraíso estão agora fora de moda... O Futuro chegou, a História acabou: todas as narrativas estão sob suspeita — inclusive as produzidas como FC. As Utopias fracassaram, mas as Conspirações estão em alta. Restam os paraísos individuais.

Tendo dinheiro suficiente, você pode ter o Éden imediatamente, ainda que por apenas alguns dias ou instantes — e ainda que tudo não passe de um simulacro, sussurra-nos PKD. A globalização transgride todas as fronteiras, até mesmo as que separam o mundo físico do metafísico. O Paraíso Celeste finalmente tornou-se um produto exclusivo, passível de ser continuamente anunciado em inúmeros canais de televisão e destinado aos devotos do novo deus Mercado.

Tem a ver:

E quanto aos deuses?
As Canções da Terra Distante
Fluam, minhas lágrimas, disse o policial - PKD

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