segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Star Trek e o fim do futuro

 

(STAR TREK)2 E O FIM DO FUTURO

 

Em Filosofia da Nova Música — obra que discute os caminhos da música europeia em sua inflexão do séc. XIX ao XX — Theodor Adorno utiliza, a propósito da obra de Stravinsky, a expressão “música ao quadrado”. Trata-se da música que prefere manipular formas já historicamente constituídas através de procedimentos como a citação, a paródia e o pastiche.

Algo similar vem ocorrendo em Star Trek em sua inflexão do séc. XX para o XXI. Uma parte crescente de Star Trek contemporâneo já é apenas não apenas uma ficção que projeta o futuro, mas uma ficção que recombina as próprias formas históricas de Star Trek. O musical, o noir em preto e branco, a animação, os fantoches, a reconstituição deliberada da televisão dos anos 60: tudo isso sugere uma franquia cada vez mais consciente de si própria como repertório estético.

A questão — pelo menos tal como percebida por muitos fãs da série — é que todas essas autorreferências estariam, de alguma forma, simplesmente encobrindo o esvaziamento da relevância do show. Culpam estúdios, produtores, roteiristas e atores. Mas desejamos explorar aqui a hipótese de que a crise de Star Trek não é necessariamente artística ou criativa, mas o resultado da perda da condição histórica que tornava sua utopia crível.


Durante décadas, a série dramatizou uma ideia relativamente clara de progresso. A humanidade superaria nacionalismos, pobreza, racismo, intolerância e guerras através da ciência, pluralismo e instituições racionais. Em certo sentido, a Federação nunca deixou de ser os Estados Unidos projetados no espaço, mas universalizava muitos dos valores que América do pós-guerra gostava de apresentar como seus: liberdade individual, igualdade jurídica, diversidade, confiança na ciência e uma ordem internacional regulada. Os EUA são raramente mencionados no futuro apresentado por Star Trek exatamente porque haviam vencido completamente: seus valores idealizados deixaram de ser meramente americanos e passaram a ser apresentados como os de toda a humanidade ou mesmo coincidindo com os da federação e de suas variadas espécies inteligentes.

Essa confiança no futuro permitia, paradoxalmente, grande liberdade crítica. Star Trek podia mostrar almirantes ensandecidos, violações de direitos, decisões imorais da Federação ou quebras da Primeira Diretriz sem destruir sua própria utopia. A crítica pressupunha um horizonte normativo seguro, um firme consenso federado em torno de um núcleo de princípios inegociáveis.

 

A seta da história

TNG ocupa uma posição histórica ilustrativa. Começou em 1987, atravessou a queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética e terminou em 1994, precisamente quando ganhou força no Ocidente a ideia de que democracia liberal, integração econômica e racionalidade institucional constituíam a direção geral da história. A Federação fornecia ao imaginário popular o ponto final dessa seta.

Se o Picard destes tempos frequentemente não sabe o que fazer, está muito seguro do tipo de civilização que representa. Na Enterprise há pesquisas, concertos, reuniões, exames médicos, manutenção de equipamentos e partidas de pôquer. Prevalece uma aura de colaboração e finalidade. Nem toda semana alguém precisa salvar a galáxia. E não é apenas preenchimento narrativo! Faz parte da utopia ter pessoas competentes trabalhando em instituições que merecem sua confiança.

Mas quem, no séc. XXI, acredita ainda nas instituições ou na seta? E Star Trek, afinal, é uma dramatização do futuro do Estados Unidos, a nação que parece sentir ter perdido sua grandeza passada. Digamos que hoje é muito menos segura a crença de que o futuro do mundo será uma versão aperfeiçoada da ordem liberal norte-americana.

A seta desapareceu. E Star Trek era, em grande medida, uma ficção sobre essa seta. Deep Space Nine ainda submetia os valores da Federação a testes extremos. A pergunta era: esses valores sobreviverão quando se tornarem caros demais? Hoje a pergunta mudou: e se as próprias instituições forem fraudulentas? Na Star Trek do séc. XX, se a federação era traída, havia tensão moral. Mas se a Federação é apenas mais uma estrutura de dominação, quase podemos aplaudir os que a traem. A desconstrução pode acabar eliminando o próprio ponto de referência que tornava a crítica relevante.

Vejamos como o enfraquecimento da teleologia da história em Star Trek afetou algumas das produções recentes.

 

Picard, de rei-filósofo a sujeito pós-moderno

 

O Picard de TNG é quase um rei-filósofo platônico em versão liberal: culto, racional, autocontrolado, moralmente seguro e investido de autoridade por uma instituição que, em princípio, merece confiança. Sua personalidade parece resultar de formação, disciplina e convicção. Ele é a representação da humanidade futura.

Em Picard essa figura é reinterpretada. O personagem passa a ser explicado menos por seus princípios do que por uma genealogia íntima de trauma, culpa e repressão. Sua dificuldade afetiva, antes facilmente entendida como escolha, temperamento ou dedicação a uma vocação, ganha raízes numa infância difícil —de um tipo que não se julgaria possível em uma era mais amadurecida da espécie humana. Picard já não é inteiramente transparente para si mesmo: precisa descobrir por que se tornou quem é.

Sei de cena o sujeito iluminista, entra o sujeito pós-moderno. No primeiro, razão, identidade e vontade tendem a coincidir; no segundo, o eu aparece como resultado de forças que sua consciência não pode apreender.  O personagem deixa de ser o mestre de si próprio e passa a ser também efeito de sua história.

 Em TNG, sujeito, instituição e história formavam uma unidade: Picard era racional, a Enterprise era funcional e a Federação representava uma direção reconhecível do progresso humano. Em Picard, as três instâncias tornam-se incertas. O sujeito é traumatizado, a instituição é moralmente suspeita e o futuro já não parece possuir uma direção segura. O Picard do séc. XX era explicado pelo futuro coletivo. O novo Picard é explicado pelo seu passado individual.

Jean-Luc Picard mudou porque nossa cultura não conseguia mais concebê-lo do jeito que era. Quando já não conseguimos explicar o sujeito pelo mundo que esperamos construir, resta-nos a explicá-lo pelo que lhe aconteceu. O rei-filósofo agora também precisa de terapia.

 

Discovery e a nova Idade Média

 

Há algo de medieval no futuro remoto apresentado por Star Trek: Discovery. Não porque o século XXXII seja tecnologicamente atrasado, mas porque sua imaginação histórica é a de um mundo posterior ao colapso de uma grande ordem. A Federação aparece reduzida, fragmentada e quase convertida em memória. Antigos membros se afastaram, rotas foram interrompidas, poderes locais ocuparam espaços abandonados e símbolos federativos passaram a ser preservados como relíquias de uma era melhor. O personagem Sahil é uma espécie de monge que passa décadas aguardando pelo retorno da Federação.

O próprio conceito histórico de Idade Média foi construído retrospectivamente como intervalo entre a Antiguidade e uma modernidade que julgava recuperar e superar o passado. O século XXXII de Discovery parece ocupar posição semelhante: vive entre a memória de uma Federação perdida e a esperança de sua reconstrução. Discovery complexifica o progressismo elementar de Star Trek, já que progresso e regresso deixam de coincidir com passado e futuro. O século XXXII possui tecnologias muito superiores, mas sua organização política regrediu. Cabe à tripulação da Discovery, vinda de quase mil anos antes, recordar ao futuro o que fora esquecido. A direção da seta se inverte. A própria ideia de progresso torna-se, portanto, restauracionista. Avançar significa recuperar: a marca do sentimento religioso.

Os princípios federados deixam de emergir como resultado racional do desenvolvimento histórico e passam a funcionar como tradição que precisa ser conservada através de uma época de dispersão. Os personagens do passado tornam-se portadores de uma ortodoxia esquecida. Até a ciência acompanha esse reencantamento. Discovery conserva o vocabulário científico da franquia, mas frequentemente aproxima ciência, emoção e forças cósmicas de maneira quase mágica. Redes miceliais conectam a realidade; estados emocionais podem assumir consequências galácticas; conexão e empatia adquirem uma dimensão quase ontológica.

Discovery costuma ser percebida — e muitas vezes atacada — como a versão mais “woke” de Star Trek, por sua ênfase em diversidade, identidades, inclusão e representação. Mas expressa um imaginário menos progressista do que parece: o século XXXII não apresenta uma ordem social qualitativamente superior à antiga Federação, e sim uma civilização que vive da glorificação do passado perdido. O resultado é uma combinação de progressismo identitário com conservadorismo histórico — uma série que amplia quem pode pertencer ao ideal federativo, mas já não consegue imaginar um ideal político além daquele herdado do passado.

 

Prodigy:  utopia ou conto de fadas?

 

Em Prodigy, a velha confiança na Federação não desapareceu. Mas mudou de destinatário. Aquilo que TNG apresentava a adultos como uma possível forma futura de sociedade aparece agora explicitamente como conteúdo formativo para crianças. Isso pode ser lido generosamente como tentativa de reconstrução cultural. Mas há outra possibilidade, menos confortável. Talvez a cultura contemporânea ainda consiga dizer às crianças que ciência, cooperação e instituições são boas, ao mesmo tempo que já não consegue afirmar aos adultos, com a mesma segurança, que esses princípios constituem o destino da História.

A utopia foi infantilizada, deslocada para um espaço em que pode continuar sendo afirmada sem enfrentar integralmente o cinismo e a suspeita exigidos da ficção adulta contemporânea. Quando a utopia deixa de parecer uma descrição séria do futuro dos adultos, ela pode sobreviver como conto de fadas.

O fim do futuro

 A nostalgia provocada por Star Trek talvez não seja apenas relacionada à séries antigas ou à juventude do espectador. É também nostalgia de uma época em que parecia possível imaginar o século XXIV. Hoje, os Estados Unidos parecem menos seguros de que seu modelo representa o futuro do mundo e, talvez de maneira ainda mais decisiva, menos seguros do próprio futuro. Isso coloca Star Trek diante de um impasse.

Reafirmar ingenuamente a antiga Federação não mais parece ser viável para o público adulto. Já desconstrui-la por completo corresponde a abrir mão aquilo que tornava a franquia singular. Resta uma terceira possibilidade: transformar Star Trek em repertório. É nesse ponto que a expressão adorniana deixa de ser apenas uma analogia espirituosa. Star Trek ao quadrado talvez seja a forma cultural assumida por uma utopia depois que a sociedade que a produziu perdeu confiança na direção da história.

No séc. XX, Star Trek perguntava como viveríamos quando chegássemos ao futuro. Hoje, pergunta o que ainda podemos fazer com as imagens produzidas quando acreditávamos que esse futuro existia. Não se trata apenas do fim de Star Trek como conhecíamos, mas do fim do futuro que tornou Star Trek possível.


Tem a ver:

E quanto ao paraíso?

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