(STAR
TREK)2 E O FIM DO FUTURO
Em Filosofia da Nova Música — obra que discute os caminhos da
música europeia em sua inflexão do séc. XIX ao XX — Theodor Adorno utiliza, a
propósito da obra de Stravinsky, a expressão “música ao quadrado”. Trata-se da música
que prefere manipular formas já historicamente constituídas através de procedimentos
como a citação, a paródia e o pastiche.
Algo similar vem ocorrendo em Star Trek em sua inflexão do séc. XX para o XXI. Uma parte crescente de Star Trek contemporâneo já é apenas não apenas uma ficção que projeta o futuro, mas uma ficção que recombina as próprias formas históricas de Star Trek. O musical, o noir em preto e branco, a animação, os fantoches, a reconstituição deliberada da televisão dos anos 60: tudo isso sugere uma franquia cada vez mais consciente de si própria como repertório estético.
A questão — pelo menos tal como percebida por muitos fãs da série — é que
todas essas autorreferências estariam, de alguma forma, simplesmente encobrindo
o esvaziamento da relevância do show. Culpam estúdios, produtores,
roteiristas e atores. Mas desejamos explorar aqui a hipótese de que a crise de Star
Trek não é necessariamente artística ou criativa, mas o resultado da perda da
condição histórica que tornava sua utopia crível.
Durante décadas, a série dramatizou uma ideia relativamente clara de
progresso. A humanidade superaria nacionalismos, pobreza, racismo, intolerância
e guerras através da ciência, pluralismo e instituições racionais. Em certo
sentido, a Federação nunca deixou de ser os Estados Unidos projetados no
espaço, mas universalizava muitos dos valores que América do pós-guerra gostava
de apresentar como seus: liberdade individual, igualdade jurídica, diversidade,
confiança na ciência e uma ordem internacional regulada. Os EUA são
raramente mencionados no futuro apresentado por Star Trek exatamente porque
haviam vencido completamente: seus valores idealizados deixaram de ser meramente
americanos e passaram a ser apresentados como os de toda a humanidade ou mesmo coincidindo
com os da federação e de suas variadas espécies inteligentes.
Essa confiança no futuro permitia, paradoxalmente, grande liberdade
crítica. Star Trek podia mostrar almirantes ensandecidos, violações de
direitos, decisões imorais da Federação ou quebras da Primeira Diretriz sem
destruir sua própria utopia. A crítica pressupunha um horizonte normativo
seguro, um firme consenso federado em torno de um núcleo de princípios inegociáveis.
A seta da história
TNG ocupa uma posição histórica ilustrativa. Começou em 1987, atravessou
a queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética e terminou em
1994, precisamente quando ganhou força no Ocidente a ideia de que democracia
liberal, integração econômica e racionalidade institucional constituíam a
direção geral da história. A Federação fornecia ao imaginário popular o ponto
final dessa seta.
Se o Picard destes tempos frequentemente não sabe o que fazer, está muito
seguro do tipo de civilização que representa. Na Enterprise há pesquisas,
concertos, reuniões, exames médicos, manutenção de equipamentos e partidas de
pôquer. Prevalece uma aura de colaboração e finalidade. Nem toda semana alguém precisa
salvar a galáxia. E não é apenas preenchimento narrativo! Faz parte da utopia ter
pessoas competentes trabalhando em instituições que merecem sua confiança.
Mas quem, no séc. XXI, acredita ainda nas
instituições ou na seta? E Star Trek, afinal, é uma dramatização do futuro do
Estados Unidos, a nação que parece sentir ter perdido sua grandeza passada. Digamos que hoje é muito menos segura a
crença de que o futuro do mundo será uma versão aperfeiçoada da ordem liberal
norte-americana.
A seta desapareceu. E Star Trek era, em grande medida, uma ficção
sobre essa seta. Deep Space Nine ainda submetia os valores da Federação
a testes extremos. A pergunta era: esses valores sobreviverão quando se
tornarem caros demais? Hoje a pergunta mudou: e se as próprias instituições
forem fraudulentas? Na Star Trek do séc. XX, se a federação era traída, havia
tensão moral. Mas se a Federação é apenas mais uma estrutura de dominação, quase
podemos aplaudir os que a traem. A desconstrução pode acabar eliminando o
próprio ponto de referência que tornava a crítica relevante.
Vejamos como o enfraquecimento da teleologia da história em Star Trek afetou
algumas das produções recentes.
Picard, de rei-filósofo a sujeito pós-moderno
O Picard de TNG é quase um rei-filósofo platônico em versão liberal:
culto, racional, autocontrolado, moralmente seguro e investido de autoridade
por uma instituição que, em princípio, merece confiança. Sua personalidade
parece resultar de formação, disciplina e convicção. Ele é a representação da humanidade
futura.
Em Picard essa figura é reinterpretada. O personagem passa a ser
explicado menos por seus princípios do que por uma genealogia íntima de trauma,
culpa e repressão. Sua dificuldade afetiva, antes facilmente entendida como
escolha, temperamento ou dedicação a uma vocação, ganha raízes numa infância difícil
—de um tipo que não se julgaria possível em uma era mais amadurecida da espécie
humana. Picard já não é inteiramente transparente para si mesmo: precisa
descobrir por que se tornou quem é.
Sei de cena o sujeito iluminista, entra o sujeito pós-moderno. No
primeiro, razão, identidade e vontade tendem a coincidir; no segundo, o eu
aparece como resultado de forças que sua consciência não pode apreender. O personagem deixa de ser o mestre de si
próprio e passa a ser também efeito de sua história.
Em TNG, sujeito, instituição e história
formavam uma unidade: Picard era racional, a Enterprise era funcional e a
Federação representava uma direção reconhecível do progresso humano. Em Picard,
as três instâncias tornam-se incertas. O sujeito é traumatizado, a instituição
é moralmente suspeita e o futuro já não parece possuir uma direção segura. O Picard
do séc. XX era explicado pelo futuro coletivo. O novo Picard é explicado pelo seu
passado individual.
Jean-Luc Picard mudou porque nossa cultura não conseguia mais concebê-lo
do jeito que era. Quando já não conseguimos explicar o sujeito pelo mundo que
esperamos construir, resta-nos a explicá-lo pelo que lhe aconteceu. O
rei-filósofo agora também precisa de terapia.
Discovery e a nova Idade Média
Há algo de medieval no futuro remoto apresentado por Star Trek:
Discovery. Não porque o século XXXII seja tecnologicamente atrasado, mas
porque sua imaginação histórica é a de um mundo posterior ao colapso de uma
grande ordem. A Federação aparece reduzida, fragmentada e quase convertida em
memória. Antigos membros se afastaram, rotas foram interrompidas, poderes
locais ocuparam espaços abandonados e símbolos federativos passaram a ser
preservados como relíquias de uma era melhor. O personagem Sahil é uma espécie
de monge que passa décadas aguardando pelo retorno da Federação.
O próprio conceito histórico de Idade Média foi construído
retrospectivamente como intervalo entre a Antiguidade e uma modernidade que
julgava recuperar e superar o passado. O século XXXII de Discovery parece
ocupar posição semelhante: vive entre a memória de uma Federação perdida e a
esperança de sua reconstrução. Discovery complexifica o progressismo
elementar de Star Trek, já que progresso e regresso deixam de coincidir
com passado e futuro. O século XXXII possui tecnologias muito superiores, mas
sua organização política regrediu. Cabe à tripulação da Discovery, vinda de
quase mil anos antes, recordar ao futuro o que fora esquecido. A direção da
seta se inverte. A própria ideia de progresso torna-se, portanto,
restauracionista. Avançar significa recuperar: a marca do sentimento religioso.
Os princípios federados deixam de emergir como resultado racional do
desenvolvimento histórico e passam a funcionar como tradição que precisa ser
conservada através de uma época de dispersão. Os personagens do passado
tornam-se portadores de uma ortodoxia esquecida. Até a ciência acompanha esse
reencantamento. Discovery conserva o vocabulário científico da franquia,
mas frequentemente aproxima ciência, emoção e forças cósmicas de maneira quase
mágica. Redes miceliais conectam a realidade; estados emocionais podem assumir
consequências galácticas; conexão e empatia adquirem uma dimensão quase
ontológica.
Discovery costuma ser percebida — e muitas vezes atacada — como a versão
mais “woke” de Star Trek, por sua ênfase em diversidade, identidades, inclusão
e representação. Mas expressa um imaginário menos progressista do que parece: o
século XXXII não apresenta uma ordem social qualitativamente superior à antiga
Federação, e sim uma civilização que vive da glorificação do passado perdido. O
resultado é uma combinação de progressismo identitário com conservadorismo
histórico — uma série que amplia quem pode pertencer ao ideal federativo, mas
já não consegue imaginar um ideal político além daquele herdado do passado.
Prodigy: utopia ou conto de
fadas?
Em Prodigy, a velha confiança na Federação não desapareceu. Mas mudou
de destinatário. Aquilo que TNG apresentava a adultos como uma possível forma
futura de sociedade aparece agora explicitamente como conteúdo formativo para
crianças. Isso pode ser lido generosamente como tentativa de reconstrução
cultural. Mas há outra possibilidade, menos confortável. Talvez a cultura
contemporânea ainda consiga dizer às crianças que ciência, cooperação e
instituições são boas, ao mesmo tempo que já não consegue afirmar aos adultos,
com a mesma segurança, que esses princípios constituem o destino da História.
A utopia foi infantilizada, deslocada para um espaço
em que pode continuar sendo afirmada sem enfrentar integralmente o cinismo e a
suspeita exigidos da ficção adulta contemporânea. Quando a utopia deixa de
parecer uma descrição séria do futuro dos adultos, ela pode sobreviver como conto
de fadas.
O fim do futuro
Reafirmar ingenuamente a antiga Federação não mais parece ser viável para
o público adulto. Já desconstrui-la por completo corresponde a abrir mão aquilo
que tornava a franquia singular. Resta uma terceira possibilidade: transformar Star
Trek em repertório. É nesse ponto que a expressão adorniana deixa de ser
apenas uma analogia espirituosa. Star Trek ao quadrado talvez seja a forma
cultural assumida por uma utopia depois que a sociedade que a produziu perdeu
confiança na direção da história.
No séc. XX, Star Trek perguntava como viveríamos quando
chegássemos ao futuro. Hoje, pergunta o que ainda podemos fazer com as imagens
produzidas quando acreditávamos que esse futuro existia. Não se trata apenas do
fim de Star Trek como conhecíamos, mas do fim do futuro que tornou Star Trek
possível.
Tem a ver:
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